8.5.06

Convite para Faro

7.5.06

Convite para o Porto

Convite para Lisboa

Nathalhie Sergueiew: a sinopse de uma biografia


Nathalie Sergueiew nasceu em São Petersburgo, em 1912. Com a revolução bolchevique a família muda-se para Paris, engrossando a comunidade de russos brancos no exílio. Estuda pintura na Académie Julian. Viajante infatigável, aos 21 anos, de mochila às costas, faz a pé o percurso Paris/Varsóvia. Chega a Berlim com o nazismo no poder. Jornalista «free lancer» entrevista então vários dignitários do III Reich. Prima do general russo branco Miller, está em Paris quando os serviços secretos soviéticos do NKVD o raptam, com a conivência do general Skoblin, o «agente triplo» a quem Eric Rommer dedicou recentemente um filme homónimo. Quando o julgamento do caso tem início, em 1938, «Lily», como era conhecida e como sempre se deu a conhecer, inicia uma nova viagem, de bicicleta, com o propósito de atingir Saigão. O início da Segunda Guerra surpreende-a na Síria. Contou o que viu e viveu nessas solitárias viagens em dois livros ilustrados com os seus próprios desenhos. Pintora que também foi, escreve em 1939: «o belo tem sobre mim um efeito extraordinário. Não posso ficar indiferente diante de um Boticelli. É um mundo à parte, no qual as palavras não têm qualquer sentido, onde a harmonia das linhas e das cores não têm nome».

Em 1940, quando as tropas da Wehrmacht descem os Campos Elíseos, decide-se. Personalidade extraordinária, volta à Europa, procura o jornalista Felix Dassel, agente da Abwehr, os serviços secretos militares alemães, e faz-se recrutar como espia. O seu propósito é, porém, outro. Depois de uma longa espera, finalmente em Madrid a caminho de Inglaterra, oferece-se aos britânicos, na pessoa de Kenneth Benton, do MI6. Aceite como agente dupla, ao serviço do XX Committee, com o nome de código «Treasure», é transferida no final de 1943 para Londres, via Gibraltar, onde integra a rede dos que efectuam a desinformação quanto ao local exacto do desembarque das tropas aliadas na frente norte. Vive então entre a capital do Reino Unido e Wraxall, uma localidade perto de Bristol.

Em Março de 1944 é enviada a Lisboa, para um encontro com o seu controlador alemão, o major Emil Kliemann, da Luft Eins, o serviço de espionagem aeronáutica da Abwehr, com o propósito de aqui receber um radioemissor. Hospeda-se no Hotel Avenida Palace, onde se situa o início da narrativa. Coroada de êxito volta a Londres mas, envolta numa teia de suspeições, acaba por ser dispensada. Regressa a Paris, onde conhece um oficial da Força Aérea Americana, Bart Collings, com quem se casa. A irmã fora entretanto assassinada em circunstâncias misteriosas. Vai então para a América, a sua última viagem. Embora minada de uma grave doença renal, a sua tenaz força de vontade, essa força anímica que sempre a acompanhou, parece não ter limites. Prossegue a escrita de um livro sobre as suas memórias da guerra, editado postumamente.
Morre em 1950, com 38 anos de idade.

O livro, escrito numa linguagem narrativa, é o produto de uma investigação de vários anos, envolvendo trabalho nos Arquivos e contactos pessoais com fontes de informação. Não se trata de um romance histórico, mas de um relato histórico que se lê como um romance.

23.3.06

Henry Graham Greene, o nosso agente para Portugal


Graham Greene não só esteve ligado aos serviços secretos entre Julho de 1941 e Maio de 1944; ele viveu toda uma série de vidas secretas, entre 1904 e 1991, as datas do seu nascimento e da sua morte.Aliás, toda a sua vida foi vivida como se em compartimentos, de que se conhece apenas o homem do exterior.Greene é hoje tido como um ícone da escrita católica mas, no entanto, a atentar no seus biógrafos, tem por detrás de si toda uma vida de adultério e de desregramento sexual pouco compatíveis com a castidade que a Igreja de Roma supõe nos seus fiéis.Greene passa por ser um referencial para a esquerda política, por causa do seu anti-americanismo primário mas, afinal, foi amigo próximo do ditador Omar Torrijos e também de Manuel Noriega, cuja ligação à mais negra equação entre a política repressiva e o narcotráfico é uma nódoa na história do Panamá.Há quem veja Greene como um homem de despojamento e simplicidade, mas houve outros que o surpreenderam em plena apetência «dandy» pelo luxo e pelo refinamento.Greene é, no subconsciente de muitos, quase como um homólogo de «O Americano Tranquilo», o angustiado jornalista que ele situa no conturbado Vietname mas, nele, a ideia do suicídio actua numa perseguição obsessiva. Para a verdade ou para a lenda, uma sessão de roleta russa em que teria estado envolvido na juventude simboliza, em verdadeira tragédia dostoeievskiana, o desespero de uma vida sem sentido nem finalidade.A sua vida pessoal organizou-a sempre numa lógica de duplicidade, curiosa situação para um membro da restrita «Order of Companions of Honour», da qual a Rainha era o primeiro membro, e cujo «motto» era «na acção fiel, na honra, claro» [«in action faithful, and in honour clear»].Aos vinte e um anos, na mesma noite em que, membro recente do Partido Comunista da Grã-Bretanha, visita Paris e assiste a soturnas reuniões de operários, nas quais se aborrece de morte, visita o «Concert Mayol» e delicia-se em espectáculos de «topless», que se prolongam pela noite adentro.Casado em 15 de Abril de 1927 com Vivienne Dayrell-Browning, a quem dedicou «com todo o meu amor» o livro «Stanboul Train», foi coleccionando paixões ostensivas que vivia clandestinamente e paixões clandestinas que vivia de modo escandalosamente ostensivo.Numa frase lapidar, o padre Leopoldo Durán, que seria seu amigo e confidente e que lhe administraria os últimos sacramentos e a quem ele dedicaria também o livro «Monsignor Quixote», escreveria numa sua biografia que aquele casamento era um equívoco: ele não deveria ter casado e ela não deveria ter casado com ele. No entanto nunca se divorciaram.Na sua vida as mulheres sucedem-se.Em Londres, antes da Segunda Guerra, já casado, apaixona-se por Dorothy Glover.Tentando encontrar um espaço para este seu enamoramento simula, em 1938, a necessidade de um local sossegado para escrever, longe do bulício do lar conjugal, e aluga para tanto um pequeno estúdio perto de Bloomsbury.Na altura o seu ser emotivo está exausto. Produz incessantemente à força de uma droga estimulante, a Benzedrine, uma anfetamina que o lança ao fim de cada dia num estado de autêntico naufrágio nervoso.No prefácio ao livro «The Confidential Agent» diria, justificando-se em público, que «essas semanas de Benzedrine foram mais responsáveis pelo fim do meu casamento do que a separação provocada pela guerra». E, no entanto, o casamento não findou.É aí, nesse esconderijo secreto, que Greene e Dorothy se encontram regularmente até 1940.Paixão erótica e envolvimento literário entrechocam-se num tresloucamento sem medida. Londres vive então os momentos dramáticos e tensos dos bombardeamentos alemães, o «Blitz».Vergados ao confinamento dos abrigos e ao «blackout», ambos se ocupam a produzir histórias para crianças; Greene escreve-as e Dorothy, que usara no teatro o nome artístico de «Dorothy Craigie», ilustra-as.Entretanto, levam a ousadia ao ponto de fornicarem quase em público nos abrigos subterrâneos.O escritor estava então colocado no ARP [Air Raid Precautions] e sujeito por isso a estritos deveres profissionais. Foi em contravenção com os mesmos que um dia foi surpreendido em coito flagrante com aquela a quem dedicaria o citado livro «The Confidential Agent».Mas não seria só com esta sua companheira literária que se daria a vida dupla face a um matrimónio de que nunca se desligaria.A ligação entre ambos não teria como factor determinante a sua apetência física. Uma sua rival, apoucando-a na sua fealdade e na sua pequenez, chamar-lhe-ia «aquele horrível anão». Ora seria a esfuziante beleza que atiraria Greene para os braços de uma outra mulher.Aqui a sedução ocorreria de modo inverso: ela procurá-lo-ia, ele queria ser encontrado.Tudo começou do modo mais extravagante.Catherine Compton Walston era a esposa de um riquíssimo homem de negócios britânico. Uma bela manhã, em 1946, o seu avião particular aterra perto da casa do escritor. De dentro da aeronave sai uma esbelta mulher, então com trinta anos.Uma tímida Vivienne Greene recebe-a.A visita traz um inesperado pedido. Americana de origem, decidira converter-se ao catolicismo e pretende que o autor de «The Lawless Roads» seja o seu padrinho de baptismo.Um ano depois, padrinho e afilhada envolvem-se num relacionamento que traz, pela natureza do sacramento que os une, um travo incestuoso.Sexo clandestino, a princípio, aquele que os atrai, recebe, para o dissimular, um nome de código, que ambos combinam como o santo e a senha para os seus encontros íntimos: «onions» [cebolas].A sacrílega ligação entre a religião e o sexo não era, porém, estranha a Catherine Walston. Já há alguns anos ela havia desenvolvido um peculiar fetiche erótico, envolvendo-se sexualmente com membros do clero. Di-lo um dos biógrafos de Greene, logo um dos mais polémicos, Michael Shelden.União decadente, esta dava ao escritor a possibilidade de ver realizadas as suas mais negras fantasias. Com ela se transpuseram os limites do convencional.Entre ambos forjou-se «o mundo de mim próprio» que Greene daria como título a uma das suas obras terminais, um diário onírico da sua privacidade íntima, aquela que o subconsciente liberta no acto de sonhar.Odisseias inconfessáveis foram então atingidas entre ambos.Em 1950, estando Greene em Veneza a filmar «The Stranger's Hand» tê-la-à feito acompanhá-lo a um bordel, vestida de homem e caracterizada como tal, ambos com um amigo comum, que relataria quanto ela «gozara como um homem» o que ali se podia fruir.Amor insano e demencial, terminaria em 1948. Nessa altura Greene iniciou a escrita de um dos seus mais aclamados livros, «The End of the Affair». Deliberadamente dedicou-lho, mencionando «para C.» na edição inglesa e «para Catherine» na edição americana.Mas não se ficaria por aqui.A sua sexualidade era compulsiva. A sistemática apetência por prostitutas ocupava o espaço restante dos seus amores adúlteros mais duradouros.Uma sua terceira ligação sexual, frívola que tivesse sido, traz no seu âmago, por igual, a marca indelével da ambiguidade.Jocelyne Rickards era amante do filósofo A. J. Ayer quando Greene a conheceu. O seu envolvimento foi intenso.Ela proporcionava-lhe o regresso às aventuras arriscadas de sexo em público e o «frisson» de poderem ser apanhados. Um dia, numa viagem de comboio, chegaram ao ponto de imaginar que as autoridades os esperavam na estação terminal. Mas, com o seu estilo andrógino, Jocelyne dava a Greene a oportunidade de um jogo dúplice, o de sentir como se tivesse em simultâneo um rapaz e uma rapariga nos seus braços. Palavras suas. * Tudo isto vem a propósito do tema que nos traz aqui.Não está em causa a devassa sobre o que possa ter sido a vida íntima ou sexual de uma pessoa que, como escritor, chegou a estar perto de receber o prémio Nobel da Literatura. Trata-se apenas de mostrar em que medida a duplicidade e o secretismo são nele não só um tema de literatura mas, também, um modo particular de ser.Poderá especular-se sobre as razões que o levam a integrar-se nos serviços secretos.A razão pecuniária não seria determinante, embora o salário de 700 libras anuais, acrescidas de outras 100 libras a título de ajudas de custo quando vivesse no estrangeiro, fosse seguramente algo melhor do que os réditos de escritor ainda não confirmado.Também não teria necessariamente que existir a grandeza do servir uma causa, pois nenhum envolvimento patriótico digno desse nome se lhe conhece, embora seguramente não tivesse, à data, nenhuma espécie de hesitação quanto ao lado que deveria servir nesse conflito que dilacerava o mundo.Aquilo que a sua biografia evidencia é que, vivendo secretamente uma natureza humana complexa, Graham Greene serviria o seu país naquele momento de «sangue, suor e lágrimas» mais naturalmente inserido nos serviços secretos do que nos quadros de um exército regular.A apetência pela «quinta coluna» é assim, apenas, um momento mais na sua biografia clandestina.Os seus primeiros anseios pela espionagem haviam-lhe surgido na década de vinte.Em 1923 visita o Ruhr na Alemanha. Tinha dezanove anos de ilusões.A situação que ali se vivia era deveras complexa, pois a Alemanha estava em mora com o pagamento das pesadas indemnizações a que ficara adstrita por força do clausulado no Tratado de Versalhes e que, em 1921, somavam seis biliões e seiscentos milhões de libras e dívidas de guerra.Nessa altura, forças clandestinas ligadas à França executavam uma operação secreta visando a criação de uma Renânia independente, que seria declarada, embora com efémera duração, em 21 de Outubro de 1923. A ideia seria, no fundo, fazer reverter para as forças ganhadoras as riquezas carboníferas da região.Para tanto, a polícia e os serviços secretos franceses e belgas haviam infiltrado nesta parte da Alemanha todo um corpo de agitadores, da mais baixa extracção, que se dedicavam, de modo orquestrado, a actividades de agitação e propaganda.Animado dos melhores propósitos, Greene lança-se numa viagem com o propósito romântico de ajudar a causa alemã.A sua acção, apesar de financiada pelo conde Bernstorff, dos serviços secretos alemães, seria completamente ineficaz, tão ridículos eram os propósitos e ingénuos os meios.A história resolveria, entretanto, o problema que ele pretendia resolver: através do plano Dawes, a Alemanha conseguiu reprogramar a sua dívida. Em 1927, minado por ansiedade crescente e havendo-lhe sido, entretanto, diagnosticada epilepsia, Greene insiste na ideia.Numa carta para Vivien, escrita em 26 de Novembro de 1926, desdobra-se na menção a lugares aonde gostaria de viajar.A sua intranquilidade está no auge. Deseja-se no Peru, em Avignon, no México, em São Francisco, no Antárctico e em Sintra.Para resolver os seus problemas financeiros, deseja ser um escritor de renome.Mas, ao receber da Alemanha uma série de livros sobre temas económicos e políticos, a vontade de ser espião possui-o de novo.«Talvez o ser espião seja o meu passatempo preferido», revela ele à que seria sua mulher, a quem pergunta, incerto de que ela aprove a ideia: «Casarias tu com um espião alemão?».Casaria sim, no ano seguinte, mas com quem viria a ser um espião britânico contra os alemães.O país que ele queria ajudar, nos anos vinte, não terminaria a década de trinta sem estar em guerra com a Inglaterra de que ele era um cidadão emérito.Greene escreveria no «The Confidential Agent», pondo a frase na boca de uma heroína do livro: «você escolhe o seu lado de uma vez por todas; é claro que pode ser o lado errado. Só a História o dirá».Tentado pelo lado errado, escolheria o lado certo. Hoje, apesar do pouco que fez, é um herói. * Só que a ligação de Graham Greene aos serviços secretos não é, nos oitenta e sete anos que viveu, nada de extremamente relevante.Não é determinante, porque se resume a três anos, não é importante, por não ter havido nada de extraordinário que ele haja feito durante esse período.Não há, no que já se escreveu sobre os serviços britânicos de espionagem e de contra-espionagem, referências significativas à sua pessoa. Não há, nas várias biografias que se redigiram sobre si, menções concretas ao que haja feito nessa matéria.Claro que para os biógrafos há sempre um expediente literário de resultado garantido: à falta de factos concretos, que permitam descrever feitos heróicos ou pelo menos dignos de registo, ocupam o seu espaço com a menção ao que se passou nos serviços secretos, quando Greene por ali andava.O leitor, enredado na narrativa, nem se apercebe do que falta e do que engana: a história é real, a personagem é, afinal, um mero figurante.Nesse aspecto, um outro escritor, que ele recruta para o MI6 antes de sair para África, Malcolm Muggeridge, vem a revelar-se bem mais activo do que ele durante o tempo em que permaneceu na estação de Lourenço Marques.Moçambique era, à data, um centro nevrálgico no que respeita às informações militares. Os abastecimentos em produtos petrolíferos aos Exércitos Aliados não podendo fazer, por razões de segurança, a rota do Mediterrâneo, tinham que utilizar a escala do Cabo, com obrigatória passagem pelo Canal de Moçambique.Ora, com o propósito de detectar comboios de navios aliados que utilizassem aquele Canal como ponto obrigatório de passagem, e assim fazer actuar os submarinos para a sua destruição, os Alemães montaram, precisamente a partir de Lourenço Marques, uma rede de agentes dos seus serviços de informações militares, na altura dirigida pelo antigo Cônsul Geral em Pretória, o Dr. Leopold Wertz, um bávaro com refinada cultura musical.Instalado durante quase um ano no Hotel Polana, ali em ostensiva promiscuidade com o agente alemão Wertz e com o representante local dos serviços de informações italianas, um tal Campini, Malcom Muggeridge sentia-se num autêntico albergue espanhol de tudo quanto eram agentes da espionagem a favor de potências estrangeiras.Mal saberia que a promiscuidade ainda viria a ser maior e no género feminino.O Hotel acabaria, aliás, por entrar na História da Literatura precisamente pela mão de Graham Greene, que o refere no seu romance «The Human Factor», como tendo sido o local de predilecto pousio e de mais compensadoras memórias do seu personagem principal, o bisonho agente Castle, cujo casamento com uma mestiça e cujas dúvidas angustiantes de fidelidade aos serviços secretos constituem um dos temas centrais da novela. * Colocado nos serviços secretos, Greene é sujeito a um intenso estágio.O seu estilo fino e irónico retém alguns dos aspectos mais ridículos do que lhe foi dado viver.Uma história fica para a posteridade: ensinado nos métodos de preparação e uso da tinta invisível, o escritor pergunta como agir no caso de ficar, em qualquer situação de emergência, privado de tal instrumento. Os seus expeditos instrutores ensinam-lhe um meio: misturar saliva com caca de pombo. A técnica do «bird shit» entraria com ele nos anais da literatura sobre a espionagem. * Graham Greene chegou a Freetown em Dezembro de 1941, viajando num navio que, com horror ele o descobriria, vinha carregado de TNT.Havia sido recrutado para o MI6 em Julho desse ano. A sua entrada na «firma» foi precedida pela auscultação em festas de fim-de-semana, nas quais, sem que disso se apercebesse, estava a ser observado com discrição.Já tinha então atingido nomeada como escritor, ao ter publicado «The Power and The Glory». Mas o seu estilo perverso já o perseguia.Sujeito ao «positive vetting», Greene teve de enfrentar reticências da parte do MI5. Um dos pontos que pesava contra si era o facto de ter sido condenado a uma pesada indemnização, que levou ao encerramento de uma revista de que era director, ao ter escrito que a figura da menina prodígio do cinema americano da época, Shirley Temple, havia sido delineada pelos seus produtores como um símbolo sexual destinado a acicatar estímulos pedófilos na audiência.Mas o escritor acabaria por ser aceite, no que pesou a influência de sua irmã, Elizabteh Dennys que, desde 1938, se encontrava ligada aos serviços e era casada com Rodney Dennys, ele também um oficial dos serviços de contra-espionagem.O MI6 ainda era, nesses tempos, uma «old boy’s network», em que pesavam mais as relações pessoais do que propriamente razões de segurança.A lógica, na altura, era recrutar os agentes dos serviços secretos entre a elite da «upper class» britânica, com predominância para os melhores de Oxford e Cambridge. Oriundo de Oxford, Greene tinha, por causa desses antecedentes académicos, muitas das portas abertas. Os americanos seguiram o mesmo método quando lançaram o OSS [Office of the Stratetegic Services»] que de tal modo recolhia pessoal com esse perfil que ficou conhecido, pela adulteração das suas iniciais, como o «Oh! So Social!».Na estação de Freetowon pouco se passou durante os catorze meses em que Greene ali permaneceu. Um dos seus biógrafos, Norman Sherry, chamou-lhe, de uma forma sugestiva, «a comedy of errors».Ao escritor que, em matéria de informações, até então se limitara a trabalhar nos serviços de propaganda do Ministério da Informação, mais não cabia do que a rotineira tarefa de um polícia colonial.Naquele sítio remoto e insalubre nada acontecia fora da modorra da rotina. A excitação do local podia comprar-se à de uma corrida de tartarugas.Greene bem podia lembrar-se daquele «motto» do seu camarada das Letras, o escritor Honoré de Balzac, que mais tarde ele citaria no pórtico da antologia «The Spy’s Bedside Book» [organizado a meias com seu irmão Hugh Greene]: «só a vida de um jogador se pode comparar, nas emoções, à vida de um espião». Só que ali as emoções eram poucas.As condições de salubridade e de conforto péssimas. A comodidade de um frigorífico não chegou a atingi-lo, porque um torpedo atingiu o navio que lho transportava, afundando-o.Ele devia reportar sobre os navios que se acolhiam naquele porto e estar especialmente atento a cargas ilícitas ou de contrabando ou a passageiros suspeitos, nomeadamente de serem agentes do Eixo.A natureza da sua missão estava escondida sob a aparência de um cargo oficial de que estaria incumbido: o de inspector do «British Board of Trade».Claro que uma personalidade tão insólita como a de Graham Greene não deixaria de apresentar planos inovadores, à medida do seu irrequietismo, decalcados nos seus fantasmas.A ideia de montar um bordel, cujas prostitutas pudessem funcionar como agentes de espionagem e de intoxicação propagandística dos seus clientes, mormente se clientes importantes, fez assim a sua aparição.Só que Londres objecta a tais ideias, mas não por causa da sua natureza extravagante, antes com fundamento no facto de os franceses já terem um lupanar de sucesso ao serviço do mesmo objectivo.Limitado nos seus movimentos, Greene escreve. «The Ministry of Fear» e «The Heart of the Matter» são redigidos naquele inóspito lugar.No mais, o campo da recolha de informações, o seu progresso é muito diminuto.Uma rede local de informadores, na maioria de origem síria, vem a revelar-se absolutamente ineficaz, pela falta de credibilidade das fontes em que se baseavam.Ademais, em Julho de 1942 Greene entra em conflito com a chefia de Lagos, da qual inicialmente dependia, problema que acabou resolvido a seu favor, sendo autorizado a entrar em ligação directa com a sede dos serviços, em Londres.Lentamente a sua missão está terminada. * Graham Greene regressa a Inglaterra em Fevereiro de 1943.O MI6 coloca-o na Secção V, o serviço incumbido da contra-espionagem no exterior. O serviço estava organizado de acordo com critérios geográficos.Um dos «desks» do «sector ibérico» era o português, onde ele foi integrado, sob a direcção de Charles de Salis.Mais tarde, quando em Agosto de 1943 Salis foi transferido para Lisboa, para ocupar a estação local do MI6, Greene ficou responsável pelo serviço português.Salis, com quem ainda falei na sua residência no Sul de Inglaterra, onde vivia com sua mulher, depois de haver terminado as suas funções no Foreign Office no Rio de Janeiro, referiu-se a Greene nos termos mais afectuosos.Quando viu que, num manuscrito meu, a propósito, se referia que Greene, apesar de estar no «portuguese desk» da Secção V, não dominava a língua portuguesa, pediu-me, amigavelmente, que omitisse essa referência, pois poderia dar a ideia de que ele tinha sido, afinal, um mau elemento, quando tinha sido, pelo contrário, uma excelente contribuição.Lembrei-me então de uma graça que Graham deixou no seu livro «A World Of My Own», no qual compilou umas quantas folhas das oitocentas páginas do diário se sonhos, que redigiu entre 1965 e 1989: o autor de «The Fallen Idol» sonhou que falava com Sartre e que lhe pedia desculpa pelo seu mau francês. Mas Sartre, polido, sossegava-o: «você fala muito bem francês, eu é que não percebo uma palavra do que você diz». * Mas por falar no MI6 e no MI5 entendo que um leitor leigo exige que se lhe explique do que se trata.Na comunidade britânica dos serviços de «intelligence» existiam então, tal como existem hoje, dois serviços essenciais: o MI6 [também conhecido como SIS] e o MI5.O MI5 é o serviço de segurança, cujo mandato implicava a defesa da segurança interna, nomeadamente contra a actividade sediciosa dos espiões estrangeiros.O MI6 é o serviço de espionagem no exterior.Da diferença decorre um efeito: o MI5 pode efectuar espionagem dos cidadãos britânicos. Daí que Graham Grene se considerasse insultado quando alguém confundia a sua missão com a de um agente desse serviço. «Eu nunca espiei os meus concidadãos», dizia, justificando-se.Numa área surgia uma lacuna: o saber qual o serviço que trataria de actuar contra os espiões estrangeiros que agissem no estrangeiro contra os interesses britânicos. Dado que o MI5 estava proibido de agir no exterior, restava criar-se no MI6 uma secção incumbida das acções de contra-espionagem: eis o objectivo da Secção V.Ao regressar a Inglaterra Greene vem a encontrar a secção V ainda instalada em King Harry Lane, St. Albans.O local, situado na propriedade de Lord Verulam, integrava três moradias: «Prae Wood», a residência e escritório do chefe do serviço, «Glenalmond», onde se albergavam os restantes oficiais da secção e um terceiro edifício destinado ao depósito do «General Registry», no qual se encontravam os «source books», livros «most secret» nos quais se continha uma descrição nominal dos agentes colocados no estrangeiro. O desk português estava no piso inferior, os sectores alemão, francês e holandês nos andares de cima do edifício Glenalmond.Quando visitei o local tive a grata surpresa de verificar que ali se albergava hoje uma creche infantil. O arrulhar de crianças substituíra, com a sua esperança num futuro mais feliz, esse denso ambiente que se vivera no tempo da guerra.O ambiente de trabalho tinha o seu quê de familiar, dada a proximidade das pessoas e o seu diminuto número, cerca de seis oficiais.A Secção V era dirigida pelo major Félix Cowgill, que sucedeu no cargo a Valentine Vivian, vulgo «Vivi». O seu ajudante era Tim Milne, o qual estava ocupado com a coordenação do material oriundo de Bletchley Park, onde se levava a cabo a descodificação das comunicações alemães decorrentes das máquinas «Enigma», o material «Ultra».O «desk» ibérico era dirigido então por Harold Russel [«Kim»] Philby, uma profunda infiltração soviética na comunidade britânica de informações, um homem que na data conspirava já para alcançar a liderança do serviço.O pessoal ao serviço no sector consistia em Charles de Salis, ocupado com Portugal e suas possessões, Trevor Wilson, especialista no Norte de África, incluindo assim Gibraltar, Tanger e Marrocos, Frank Hyde, Jack Ivens e Desmond Bristow. Mais tarde chegaria Francis Watts.A chegada, ao sector, de Trevor Wilson, então com cerca de trinta anos, ficou a dever-se, segundo Bristow confidenciou nas suas memórias, ao seu conhecimento da língua marroquina e «talvez às suas habilidades de comediante». Antes de chegar os serviços secretos, Trevor havia sido comprador, na Abissínia, de excremento de doninha fedorenta para a companhia de perfumes Molyneux. Tinha, por isso, um razoável conhecimento da situação no norte de África. Católico, tal como Greene, tornou-se, por isso seu amigo. Encontrar-se-iam mais tarde no Vietname. Tal como quanto a Greene, o género feminino não o deixava indiferente.Frank Hyde era um antigo oficial de ligação da Marinha Britânica em Barcelona durante a Guerra Civil espanhola.Quanto a Jack Ivens, havia trabalhado como importador de fruta de Portugal e de Espanha, antes do início da Guerra. Era casado com uma grega.Só que a quantidade de trabalho ia para além das expectativas e Greene acumulava um sentimento de claustrofobia. Praticamente só depois das oito da noite conseguia sair para respirar algum ar fresco. Por isso os momentos de descontracção sabiam a pouco. Um deles era vivido em torno de um «pub» que se tornaria lendário, o Peahen Inn.Depois de ter visto num livro de memórias do agente Desmond Bristow, ele também elemento da Secção V, com quem conversei há uns anos em Málaga, onde se encontrava reformado, fiz questão de visitar o local e tomar uma cerveja numa das mesas por onde se deve ter sentado Graham Greene, «Kim» Philby e o resto do grupo.Mas os almoços ocorriam também no «King Harrys», sobretudo os de domingo, onde este grupo de amadores cimentava as suas relações em torno de verdadeiros festins de cerveja e sanduíches.Só que a Secção V não estaria ali por muito tempo pois, em Julho de 1943, mudar-se-ia para Londres onde, no número 7 em Ryder Street, St. James, ocuparia as instalações que acabariam por ser, mais tarde, as da prestigiada revista «The Economist». A entrada do edifício tinha uma placa onde se mencionava discretamente «Charity House».Para se entrar cada um dos membros não exibia um cartão que o identificasse como um agente dos serviços secretos, mas sim um cartão de membro do «Greenwood Country Club».Junto ficava a residência do chefe máximo do MI6, Sir Stwart Menzies, o célebre «C» [alias «CCS», que Ian Fleming, outro membro dos serviços secretos que deu em escritor, chamaria nos seus livros sobre James Bond, «M»]. O escritório de Menzies era no quarto andar do n.º 54 de Broadway. A entrada do imóvel ostentava, para melhor disfarce, uma placa que o identificava como a sede da firma «Minimax Fire Extinguisher Company».Já em Londres, Greene teria a oportunidade de encontrar Norman Holmes Pearson, professor de literatura da Universidade de Yale e James Jesus Angleton, que viria a ser director da CIA, ambos integrados nos serviços americanos de espionagem, o OSS.Não há muito que se diga do que fez Graham Greene durante a sua permanência na Secção V do MI6.Seguramente que lhe competia trabalhar no extenso ficheiro de espiões nazi fascistas que operavam a partir da Península Ibérica, nomeadamente desde Lisboa, o «Purple Primer».Para isso ele era alimentado por informação que lhe chegava de várias fontes, nisso incluindo o produto das escutas das comunicações radiofónicas alemãs, de cuja descodificação se encarregava um dos mais secretos serviços de cripto análise, situados em Bletchley Park, o GCHQ.O material chegava todos os dias numa carrinha de padeiro, conduzia pela mulher de um dos cripto analistas.Só que, para além desta tarefa de compilação de dados e de elaboração de relatórios, pouco mais se conhece a Graham Greene durante este seu período de permanência pela Secção V do SIS.Por isso, muito do que é referido a tal propósito tem mais a ver com acontecimentos que ele viu do que com factos que ele praticou.A descrição de «Kim» Philby é, nesse aspecto, eloquente: Greene contribuíra para a alegria e boa disposição do serviço mas, de facto, não se recorda um feito relevante a que ele pudesse ter estado então associado.Talvez a arte de viver o servisse então da maneira mais cómoda, ele que deixaria num seu livro a ideia de que, nos serviços secretos, uma parte do trabalho consistia em dar a impressão de que se trabalhava. * Vivendo uma vida secreta, tendo experimentado a vida dos serviços secretos, Graham Greene haveria de exprimir, na sua obra literária, muito desse envolvimento com a duplicidade, com as sombras e com a clandestinidade.Nesse aspecto não esteve só e entroncou uma extensa galeria de escritores espiões e de espiões escritores: John Buchan, Ian Fleming, Somerseth Maugham, Malcolm Muggeridge, Rudyard Kipling, T. E. Lawrence, Compton Mackenzie, John Le Carré, acompanham-no nesse particular.É claro que, como escreveu num dos seus livros, as suas experiências no MI6 no campo dos sonhos foram bem mais interessantes do que o trabalho de secretária que levou a cabo, durante três anos, no mundo real.Vistos do ângulo de Greene, os serviços secretos são uma entidade fria e indiferente aos dramas humanos que se vivem no seu interior.A propósito da sua escrita, David Cornwell, que passou para a literatura com o nome de John Le Carré, disse que Graham Greene tinha «uma compaixão universal transcendente».Ora, nesta perspectiva, um tal homem só podia diabolizar o mundo restrito em que se movia.Aí está essencialmente em causa o factor humano e «The Human Factor» é precisamente o título de uma das suas obras mais conseguidas a este respeito. Greene sabe que o homem é sempre mais complexo e mais universal do que aquilo que dele se desdobra no emprego, na família, num partido.Ao escrever uma introdução ao seu livro «The Confidential Agent» que, em Portugal, circula como «O Agente Secreto», Greene deixou este momento sobre uma das personagens: «Há certas coisas que me agradam neste livro: por exemplo, a situação do agente com escrúpulos, que não tem confiança no seu partido e que chega à conclusão que o seu partido tem razão em não confiar nele».E com este o binómio, o da fé, da crença e da confiança e dos seus reversos, o desespero, a dúvida, a suspeita Greene passa da álgebra do real para a geometria da ficção. * Mas, por ventura, é na sua visão do que se possa entender como o paroxismo da lealdade que Graham Greene se notabilizou.Ao escrever o prefácio para o livro de memórias que «Kim» Philby editou já a partir da URSS [«My Silent War»], Greene teve a ocasião de exprimir a verdadeira natureza do seu pensamento a este respeito.Ligava-o a Philby uma profunda amizade. Entre ambos manteve-se uma regular correspondência, contra o que seria conveniente.Ao desaparecer em 23 de Janeiro de 1963 com destino a Moscovo, a partir de Beirute, onde se encontrava colocado, aparentemente como jornalista correspondente do «Observer» e da revista «Economist», Philby tornar-se-ia uma das pessoas mais odiadas pelo «establishement» das informações.Greene compreendeu Philby, como poucos o fizeram.Compreendeu-o porque, no plano humano, relativizou a sua atitude, situando na sua verdadeira dimensão a questão da lealdade, comparando a que é devida a um país com a que é devida a uma pessoa ou a uma ideia. A frase «quem, entre nós, não traiu algo ou alguém mais importante do que um país?» liquida, de modo definitivo, a majestade da dedicação fiel a uma Nação ou a um Estado.Compreendeu-o porque lhe deu o direito ao esquecimento e à amnistia moral. A última frase desse polémico prefácio «depois de trinta anos no subterrâneo ele seguramente ganhou o direito à paz» encerra em si mais compaixão humana do que aqueles que, ao escreverem na imprensa britânica, em Maio de 1988, o obituário de Philby, não hesitaram na selvajaria de desejarem que a sua agonia tivesse sido longa e dolorosa.Compreendeu-o, enfim, porque soube ler uma das frases dessas memórias em que Philby, lembrando que, durante a Segunda Guerra, a Grã-Bretanha tivera na Rússia soviética uma aliada contra a Alemanha nazi clamava, ante o antagonismo que nascera entre ambas as potências com a guerra-fria que, afinal, a Inglaterra, que o acusava de traição, é que mudara e traíra, pois ele, mantivera-se fiel.Greene, ao visitar a URSS, a convite de Mikhail Gorbatchov, em Setembro de 1986, teria a oportunidade de visitar Philby no seu apartamento em Patriarch’s Pond. Novos encontros teriam lugar em Setembro do ano seguinte e em Fevereiro de 1988, pela última vez.Rufina, a última mulher das muitas mulheres de «Kim» Philby, recorda com emoção esse derradeiro momento.Claro que tanto Greene como Philby ignoravam que esse seu encontro vinha orquestrado pelos serviços do KGB.Genrikh Borovikh, jornalista da agência soviética Tass e da televisão de Moscovo, actuando a mando do «Centro» organizara as coisas.Philby vivia então numa miserável e anónima situação de ostracismo, ignorado quanto a tudo o que fizera em prol da URSS.A nova gente do KGB entendeu o absurdo da situação. Entendeu, sobretudo, em que medida uma tal ingratidão poderia revelar-se desconcertante para futuros recrutamentos, revelando que não valia a pena, afinal, o heroísmo em prol dos «amanhãs que cantam». Por isso tentaram reabilitar Philby, trazendo-o à ribalta.Neste particular, sem que disso se desse conta, Greene foi instrumental.Aquele vício que ele, certeiramente, diagnosticara nos serviços secretos ingleses contagiava, também, os da pátria do socialismo. O factor humano contava pouco, contava zero. * É essa ideia que subjaz também à sua obra «Our Man in Havana».A história é conhecida: Wormold, um vendedor de aspiradores residente em Havana, falho de dinheiro, acaba por se embrulhar com os serviços secretos. A oportunidade de convencer o MI6 de que o diagrama de ligações de um desses electrodomésticos era, afinal, o plano de um míssil, abre-lhe as portas como espião. Torna-se o agente 59200/5, «o nosso homem em Havana». Daí em diante basta ir alimentando a sede insaciável dos seus superiores com informações falsas, muitas das quais baseia nas «Tales from Shakespeare» e na sua prodigiosa imaginação. A partir dele toda uma rede de agentes surge, tudo pago principescamente por quem estava desejoso de se deixar enganar.Assim contada, a narrativa parece impossível. E, no entanto, por detrás dela estão dois acontecimentos ocorridos em Lisboa e que se reclamam como fontes inspiradoras da história.Em primeiro lugar, o caso de Juan Pujol Garcia, o agente «Garbo»; em concorrência com ele, a história incrível de Paul Fidrmuc, o agente checo «Ostro».Quer um quer outro são casos de personagens que, deliberadamente, enganaram os serviços secretos, vendendo-lhes falsa informação.«Garbo», porém, conseguiu levar mais longe a sua façanha: durante a Guerra e por incrível que isso pareça, ele recebeu, pois era agente duplo, as mais altas condecorações dos governos britânicos e alemão.A propósito de ambos tive duas experiências pessoais indeléveis.Juan Pujol Garcia era um catalão que se escapuliu para Portugal. A partir da sua residência, no Estoril, montou todo um esquema astucioso pelo qual enganava os alemães, fornecendo-lhes falsas informações sobre uma realidade que não conhecia: a vida em Londres.Garcia nunca tinha estado em Inglaterra e os elementos de que dispunha sobre a cidade eram um mapa de horários de comboios, um folheto turístico e um dicionário. A sua ignorância era tal que não sabia fazer a conversão do dinheiro inglês no complicado sistema antigo dos «shillings» e dos «pennies». Mas como o atrevimento era grande, não se coibiu de avançar.Por isso, em troca de avultadas quantias que ia recebendo no Banco Espírito Santo em Lisboa, Garcia não só fornecia pormenores absolutamente fantásticos sobre dados concretos do que supostamente se estaria a passar em Londres, por causa dos bombardeamentos alemães como, além disso, foi paulatinamente gerando toda uma rede de agentes fictícios, pagos pelos serviços secretos militares alemães, a Abwehr.Uma das experiências mais fantásticas que me foi dado observar foi encontrar em Inglaterra, no Public Record Office, todos os dossiers que os serviços britânicos haviam compilado, um por cada um dos agentes.Um espectador que os visse desprevenido imaginaria que se tratava de dossiers atinentes a agentes reais. Só que isso não era assim. Cada um compilava as informações que, em nome desse falso agente, haviam sido passadas aos alemães.Graças a Garcia e, sobretudo, ao seu controlador, o negociante de arte Thomas Harris, nasceu um agente duplo, com o nome de código «Garbo», em homenagem aos seus dotes de actor e como uma lembrança à actriz Greta Garbo.«Garbo» contribuiu de modo decisivo para a sorte do desembarque aliado na Normandia.Integrado no XX Committee, ele conseguiu enganar os alemães quanto ao local exacto desse desembarque. Milhares de vidas foram poupadas por causa desse feito.Mais tarde ele seria encontrado na Venezuela pelo historiador «Nigel West», nome literário do deputado Ruppert Alason. Quanto a «Ostro», a sua história é semelhante.Também a partir de Lisboa alimentava os alemães com informações falsas.Nele, a realidade e a ficção também se misturavam.Nascido em 28 de Junho de 1898, Fidrmuc dedicar-se-ia à vida comercial, o que lhe daria a cobertura suficiente para os seus vários postos no estrangeiro ao serviço da Abwehr nazi, primeiro na Dinamarca, depois em Roma e finalmente em Portugal.Um hedonista perfeito, grande parte do seu tempo era consumido em actividades náuticas.Os que com ele privaram então recordam ainda a canoa com que se deleitava em excursões ribeirinhas, adensando em torno dessa inocente actividade parte do mistério sobre a sua pessoa e as reais finalidades desse lazer. No «milieu» ele era «o homem da canoa».Um dia, em 24 de Agosto de 1943, na praia dos Coelhos, na Arrábida, conseguiu deitar a mão a uma agenda do Embaixador Ronald Campbell, na qual estavam anotados códigos secretos que podiam comprometer a segurança das comunicações diplomáticas.Por causa dele procurei, no Estoril, a Vivenda Igloo, a sua residência de então.Não a encontrei. Mas, um dia, num intervalo de um julgamento no Tribunal da Boa-Hora, daqueles que são sucessivamente adiados, tive um estranho pressentimento.Sabia que «Ostro» tinha estado em Lisboa. Sabia que a sua actividade se ocultara por detrás de uma firma comercial. Ora a Conservatória do Registo Comercial era ali ao lado.Num ápice ali estava eu. Por sorte e amabilidade do funcionário, minutos depois ei-la, a certidão do registo, nas minhas mãos: era a firma «Brucker-Trans, Limitada».A Brucker -Trans, Ldª havia sido constituída em 7 de Maio de 1941, no cartório do notário Tavares de Carvalho, em Lisboa. Foram seus sócios fundadores Germain Brucker - Trans, casado, morador no Estoril, no Hotel do Parque e Paul Fidrmuc, casado, morador no Estoril no Hotel Igloo, na Rua D. Afonso Henriques e Camillo Franck, casado, morador em Algés, na Rua da Boa Vista. Todos os sócios declinaram terem como profissão a de «comerciante».A firma tinha a sua sede em Lisboa, na Praça do Comércio, nº 7, tendo como vago objecto «o exercício do comércio, sem espécie alguma determinada».Negociara em cortiça, alimentos enlatados, produtos resinosos e import/export da Bélgica e da Alemanha.Mais tarde mudaria a sede social para a Rua da Prata, nº 80, 3º andar. Saído do tribunal, subi a escada pombalina, a cheirar a xixi de gato. Em frente a mim estava uma porta de madeira meia apodrecida. A poeira da História empestava o lugar. Por um momento, sessenta anos no tempo equivaleram a um segundo de intensa emoção. * Greene demite-se do SIS no dia 2 de Junho de 1944, quatro dias antes do dia D, o dia do desembarque das forças aliadas nas praias da Normandia. Fê-lo com todo o cavalheirismo. Convidou «Kim» Philby e Tom Milne para almoçarem no Café Royal e apresentou as suas razões.Mais tarde justificar-se-ia dizendo que o fizera porque se apercebera das movimentações de Philby para alcançar o lugar de Cowgill e não quisera alinhar em tais manobras.Quando Norman Sherry escreveu a monumental biografia de Graham Greene, que planeou em três volumes de que apenas saíram dois, após doze anos de trabalho insano, ainda as verdadeiras razões da resignação do escritor permaneciam envoltas em mistério.Certo que uma personalidade intranquila como a de Greene seria pouco compatível com a permanência naquela rotina burocrática por muito tempo. Philby, com quem Sherry teve ainda a oportunidade de falar, confidenciou-lhe que chegou a oferecer a Greene a chefia do lugar que ocupava, admitindo recomendá-lo para aí, mas ele recusou-se. * 2004 - perfazem-se cem anos que nasceu Graham Greene. Graham Greene esteve ligado a Portugal. Esteve-o durante a sua passagem pelos serviços secretos. Mas esteve-o também durante as suas várias deambulações na fase terminal da sua vida.De todos os locais Sintra é um dos mais determinantes.Já retirado dos serviços secretos, Graham Greene passeia-se, enfim, longamente, pelos lugares da sua memória, com o padre católico Leopold Durán, seu amigo, biógrafo e confidente.No Outono das suas vidas, é tempo de recolhimento e de diversão, de viagens que nada tendo a ver com turismo, antes são deambulações erráticas a que ele chama então de «picnics».Entre os seus passos, estão Lisboa e os arredores, com predilecção para Sintra.Mas é em Sintra que sente agora os seus melhores momentos.Ali Greene encontra uma referência dos tempos aventurosos da sua passagem pelo Quénia: Maria Newall.Restam-lhe ainda muitos anos de vida, pois viria a falecer em 1991. Mas para trás ficara já um vasto mundo de viagens e de sonhos.Foi assim no Verão de 1977. A 19 de Julho, Graham Greene e o Padre Durán chegam à «Quinta da Piedade» em Sintra e hospedam-se no pequeno anexo que ali se encontra, envolto num jardim e dedicado às visitas.A anfitriã, Maria Newall, limitada a uma cadeira de rodas, recebe-os efusivamente, no anexo que a generosidade da marquesa do Cadaval lhe proporcionava. Então com oitenta e cinco anos de idade, esta simpática anciã, que viria a falecer em Julho de 1984, é um marco miliário no seu itinerário.Ao receber o amigo, Maria conservava a força de alma dos tempos em que defendera os seus domínios territoriais contra a insurgência dos «Mau-Mau» e em que, de revólver à cintura, recebera o então jornalista Graham Greene.Católica, a vida espiritual é agora parte determinante da sua vivência quotidiana. Os livros continuam a envolvê-la.A cidade do Tejo não lhe era estranha. Já aí estivera com Carol Reed, o director cinematográfico, então em masculina diversão.Entre os planos do escritor, pulula agora a ideia de entrevistar o então major Otelo Saraiva de Carvalho, o romântico estratega do 25 de Abril.Mas nada disso vem a suceder, e a passagem por Lisboa desfruta-a, entretanto, como qualquer anónimo viandante.Paciente e devotado, o cura espanhol faz-lhe companhia.Uma noite, ignorados, jantam no «Michel», ao Castelo de São Jorge, restaurante que para Greene se chama o «Restaurante da Inspiração». Eterno conversador, o escritor desmultiplica-se aí em anedotas pouco canónicas, que a memória do eclesiástico regista com pormenor.No ano seguinte estão de novo em Sintra. Desta feita, para uma visita ao palácio de Queluz, residência real. Almoçam na Cozinha Velha e tentam ver os quadros de Don Quixote. Só que a presença do presidente alemão no local barra-lhes o caminho quanto a tal propósito.Desolados, retornam a casa de Maria Newall.De 1977 em diante, praticamente em todos os anos, Graham Greene passaria uma semana na Quinta da Piedade.Tudo aqui tão perto. * Nas primeiras linhas do seu livro «The End of the Affair», Graham Greene escreveu: «uma história não tem começo nem fim: alguém escolhe arbitrariamente o momento da experiência a partir do qual se olha para trás ou para a frente».Quisemos olhar para a vida de um homem a partir da irracionalidade dos seus sonhos.No momento em que nasce, um homem pode vir a ser tudo, quando morre já o todo se atingiu.Comemorar o nascimento de quem está morto é, por isso, um acto simbólico de ressurreição espiritual, como se, querendo enaltecer-lhe a vida, quiséssemos devolver-lhe a oportunidade de a viver outra vez.Perguntado como se sentia por não ter recebido nunca o prémio Nobel da Literatura Graham Greene ironizou, dizendo que teria seguramente um prémio bem melhor do que esse, o da morte.E é um facto que para os escritores a morte é a garantia da consagração.Aqui celebrámos a vida.Viva Graham Greene, que com ele vive, errática, complexa e tumultuosa, a própria vida!

19.3.06

Salazar e Franco: o encontro secreto

[continuação deste postal ]

Facto consumado! No maior segredo, nem aos mais íntimos confessando a sua intenção, Salazar partira essa manhã, de automóvel, acompanhado de Lourenço e de dois oficiais de segurança, rumo ao Sul de Portugal. Passado o Tejo pelas nove e meia, junta-se-lhe em Estremoz o Embaixa-dor Pedro Teotónio Pereira que, para o efeito, se deslocara de Madrid, onde chefiava a Legação portuguesa junto de Franco. Retomada a marcha, pela hora do almoço os viajantes estão perto da fronteira. Dá-se então o ainda mais inesperado. A um gesto de Salazar, o motorista estaciona num local retirado da estrada. Cumprindo um ritual pré estabelecido, abre a bagageira da viatura e dali retira um cesto. Dali sai, queiram ou não os circunstantes acreditar, o farnel para o almoço. Disposto a não dar nota da sua presença e a isso juntando uma economia de despesa, Salazar confunde-se com a paisagem e quais turistas aciden-tais em improvisado piquenique, satisfaz assim as exigências vitais. Os outros acompanham-no em respeitoso silêncio. Filho de camponês, a refeição é frugal. E, no entanto, é um momento decisivo da História contemporânea que então se vive. Não adivinhariam os poucos passantes que ali, nesse «déjeneur sur l’herbre» estava a jogar-se o futuro de Portugal e a sorte da Segunda Guerra Mundial. Salazar dirigia-se a Sevilha para um encontro secreto com Franco. Iriam ver-se pela primeira vez. E, no entanto, até ali, tinham estado sempre juntos. O encontro, ocorrido nessa noite no Alcazár, seria decisivo. O ambiente político e militar de então não poderia ser mais carregado. A ameaça de envolvimento de Portugal no conflito militar que, desde há três anos, dilacerava a Europa, era cada vez mais iminente. O país havia definido desde o princípio das hostilidades uma política de neutralidade colaborante, ditada pela Aliança Inglesa e pela consideração que não poderíamos, por causa dela, hostilizar os britânicos nem por efeito dela guerrear os alemães. Mas, na concepção de Oliveira Salazar, a neutralidade jogava-se igualmente na frente atlântica, envolvendo o destino dos Açores e de Cabo Verde, e no bloco peninsular, envolvendo uma concertação com a Espanha. Com o Governo de Madrid Portugal firmara, logo em 1939, um «Tratado de Amizade e de Não Agressão» e em Julho de 1940 um Protocolo Adicional. Mas dois anos volvidos, em 1942, o panorama estava diferente e mais complexo. Aos riscos de uma invasão nazi, que Hitler prenunciara com a «operação Félix», sucedem-se, em cumulação, os riscos de uma invasão aliada, pois certos sectores das «nações unidas» não queriam correr o risco de deixar um país estrategicamente tão importante como Portugal ao acaso de uma ocupação pelo Eixo e da subsequente perda de posição dos pontos nevrálgicos dos Açores e de Cabo Verde. Os relatórios oriundos de Madrid, subscritos pelo Embaixador Samuel Hoare, eram absolutamente preocupantes quanto às intenções das partes em presença. É nesta ambiência que se dá o encontro entre o Generalíssimo Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco Bahamonde, o «caudillo» de todas as Espanhas, e o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal, Professor António de Oliveira Salazar. À histórica conversa entre ambos apenas assistiria Serrano Suñer, o recém empossado Ministros das Relações Exteriores e cunhado de Franco, o homem da Falange.. O jogo é denso, quer por causa das pessoas em presença, quer por virtude das realidades políticas do momento. Preparado para todas as eventualidades, Salazar não ignorava a manhosa habilidade de Franco que, em declarações sucessivas, parecia decisivamente inclinado para o lado do Eixo nazi fascista, enquanto que, por outro lado, dava sinais contraditórios aos Aliados de que respeitaria a «não beligerância» que definira no advento do conflito. Ainda para complicar a cena, no tablado da encenação política, Franco, que até então havia jogado no apagamento intencional da sua imagem, fazendo projectar à boca de cena, a do seu cunhado, Serrano Suñer, cujo germanofilismo era mais do que patente, surpreendera agora tudo e todos com um golpe de aza, invertendo os papéis e assumindo um papel decisivo na condução dos negócios políticos exteriores. Mas, para além das aparências da encenação política, Suñer era, naquele encontro, uma peça decisiva. O seu passado quando da elaboração do Protocolo Adicional ao Tratado de não agressão havia deixado marcas indeléveis da sua má vontade contra a posição portuguesa. Negociado secretamente entre Teotónio Pereira e Juan Beigbeder Atienza, o documento havia sido aprovado por Franco, mau grado a fria oposição de Suñer, que para o efeito não desdenhara mesmo o animar uma campanha de imprensa hostil a Portugal. Perante isto, Oliveira Salazar não ignorava que parte decisiva do que dissesse ou fizesse deveria também visar o convencimento do cunhado do Generalíssimo, pois seria dele que poderia vir o obstáculo definitivo a qualquer acerto que então se fizesse.Neste particular a sua vitória pessoal foi total. No plano político, a situação também não era fácil para um alinhamento da Espanha com a pretensão portuguesa de subsistência da neutralidade comum. Internamente, eram cada vez mais activas as forças do regime que, confiadas numa vitória nazi, clamavam por um alinhamento militar ao lado de Berlim, a que se juntavam quantos pretendiam a oportunidade para concretizar uma anexação política de Portugal, viabilizando assim a formação de um bloco ibérico, mais satisfatório aos apetites hegemónicos imperiais de Castela. Provocatóriamente, a Falange havia mesmo mandado imprimir, no Auxílio Social de Valladolid um mapa da península no qual Portugal aparecia como uma província de Espanha. Exteriormente, a cada vez mais intensa colaboração militar dos Aliados com a União Soviética, aliciava o endémico anti comunismo espanhol a não alinhar com aqueles que estão agora no mesmo campo dos vermelhos contra os quais se havia erigido, em três anos sanguinolentos, a guerra civil. No meio deste «albergue espanhol» Franco, prudente e ardiloso. Instintivamente, Salazar está convencido de que Franco, mau grado o es-pectáculo das suas declarações e da dos seus, não dará o passo final em favor de Hitler e apenas pretende sossegar o Fuhrer, entretendo-o no eterno jogo das esperanças. A origem de Franco explica a sua psicologia. Fiel ao dito «se vires um galego numa escada nunca saberás se vai a subir ou a descer», Salazar conta com a indefinição do seu interlocutor e não espera dele mais do que sinais.
Formal, a conversa entre os dois estadistas decorre com fluência. Em atenção a Salazar, Franco fala no seu dialecto de origem, o galego, absolutamente compreensível pelo seu interlocutor. Atento, Suñer surpreende-se pelo que lhe é dado observar. Minado de preconceitos políticos, mas arguto observador, rende-se incondicionalmente ao Presidente do Conselho português. Em entrevista posterior com o Embaixador alemão em Madrid, não hesita em declarar a sua opinião. Para si, Salazar é um «homem extremamente simpático, extremamente bem educado, culto, amável, duma perfeita dignidade». Mais tarde a amigos dirá que Salazar é «um homem de primeira ordem, com todo o rigor de um catedrático e a paixão de um místico». Do lado de Franco o desconcerto também é algo evidente. Cioso de um encontro com pompa e circunstância, fica desarmado por aquela discretíssima embaixada. Uma década volvida, em 13.01.58, em entrevista ao jornal conservador francês «Le Figaro», o Generalíssimo não esconderá os seus sentimentos acerca de Salazar que, para ele é «o mais completo e mais digno de respeito estadista que conheci. Olho-o como uma personalidade extraordinária pela sua inteligência, o seu senso político, a sua humanidade. O seu único defeito é a modéstia». Exercício de sedução, a conversa entre os estadistas não foi fácil. Violando a regra estratégica de que uma força cercada não faz manobras, Franco, fugindo para a frente, tenta convencer Salazar de que os Aliados preparam a invasão de Portugal, facto que a Espanha tomará então, a acontecer, como um acto de agressão contra si própria. No plano interno, mostra a funda preocupação pela aliança dos Aliados aos comunistas, face ao que só a esperança de que o III Reich liquide a Rússia, lhe dá algum alento. Inteligente, Salazar percebe o equívoco acerca da eventual vitória a Leste e desloca o problema para o campo onde poderá estar mais à vontade. E adquire a certeza de que a única razão decisiva que fará a Espanha en-trar na guerra contra os Aliados serão razões vitais de abastecimento, caso os víveres que lhe chegam através dos intencionais «buracos» ao bloqueio económico, se venham a mostrar insuficientes. E isso é algo que está ao alcance do Ministério da Guerra Económica (MEW) britânico definir. Regressado de Sevilha no dia seguinte, esgotado pela viagem e pela verti-gem do que negociara, Salazar trazia a mais formidável certeza para o futuro próximo da guerra. Sabe que a não beligerância espanhola se manterá. Divulgado a 13, em telegrama circular do MNE, o comunicado oficial ex-pressa o mínimo, referindo que «nas conferências realizadas foram examinadas, dentro do espírito de amizade e de identidade de vistas que preside às relações entre os dois países peninsulares, tanto os problemas políticos e económicos de carácter geral suscitados pela situação actual do mundo, como os problemas privativos dos dois Estados, tendo-se acordado manter de futuro o mais estreito contacto para a salvaguarda dos interesses comuns dentro dos termos estabelecidos nos referidos convénios». E remata o comunicado - na fina ironia de excluir Suñer e dar notícia de testemunhas do que se passara - : «Assistiram o Embaixador de Portugal em Espanha, Dr. Pedro Teotónio Pereira, e o de Espanha em Portugal Dom Nicolau Franco».

16.3.06

Thomas Harris

[continuação deste postal ]

Nascido em Londres em 1908, filho de pai britânico e de mãe espanhola, a sua vida fica duplamente hipotecada à sua ascendência. Do pai Lionel, judeu de origem, herda a apetência pela arte espanhola, do mobiliário à cerâmica, dos tapetes à joalharia. Da mãe Enriqueta - também o de uma das suas três irmãs - o gosto pela própria Espanha, na qual viveu alguns anos até à sua morte ocorrida em 1964 em circunstâncias trágicas e enigmáticas. A galeria de arte ibérica que a família abriria em Conduit Street, ao ser frequentada por altos dignitários e por figuras da realeza, daria a todos a afluência de meios financeiros que os protegeria dos acasos da má fortuna. Formado numa das mais importantes escolas de arte britânicas e então - a «Slade School of Art» -, completaria a sua formação em Roma, onde ganharia desenvolvimento o seu profundo conhecimento de Goya, de que se tornaria um dos mais reputados especialistas, e de El Greco. Não desdenhando uma oportunidade comercial, aproveitaria o período da Guerra Civil espanhola para viajar até Espanha e comprar a preços reduzidos peças valiosas que os refugiados transaccionavam por aflição. Datará dessa ocasião o seu conhecimento com «Kim» Philby, então colocado em Burgos, junto das tropas do Generalíssimo Franco, na qualidade de correspondente do jornal britânico «The Times». Mas o que é certo é que a partir desse período está intrinsecamente ligado ao «círculo de Cambridge». Em 1937 uma exposição que a família promove para contribuir para a Cruz Vermelha espanhola é inaugurada nas galerias do Courtlaud Institute pelo curador de quadros da Coroa, nada mais do que Anthony Blunt, «o quarto homem» do grupo que trairá a Grã Bretanha em favor da URSS. Com o começo da Segunda Grande Guerra, Tomás e sua mulher são recrutados por outro elemento do mesmo grupo, Guy Burguess, respectivamente como cozinheiro e governanta da secção D do MI5, sendo mais tarde transferidos para o SOE, o serviço de operações especiais e clandestinas, por recomendação de mesmo Burguess. As irmãs, Conchita, Enriqueta e Violeta, integrariam também os serviços do MI5, na secção BI (a). Com o fim do SOE, o casal mantém-se na secção D, na altura em que Anthony Blunt desempenhava ali funções de assistência da direcção. E é ele quem, em 1941, recomenda precisamente «Kim» Philby, primeiro para a secção de pessoal do MI6 e mais tarde como possível chefe da sub-secção ibérica da Secção V do MI6, o que vem a suceder sendo que ele próprio viria a chefiar a secção ibérica do MI5. Como nas suas memórias («My five Cambridge Friends») recordaria Yuri Modin, o «controleiro» soviético de Philby (o agente «Stanley», para o KGB), ao sugerir o nome de Philby, cujos artigos do tempo da Guerra Civil espanhola eram então sobejamente conhecidos, Harris não esqueceria referir que o pai de «Kim» era amigo de Valentine Vivian, então na direcção da secção V, contribuindo, deste modo arguto, decisivamente para uma escolha formidável para a causa soviética. E é em sua casa, nas festas que regularmente animam a vivência social que partilhava com os eleitos amigos, que se cruzam Philby, Blunt, Burguess e, por vezes, Victor Rotschild, Donald MacLean, «o terceiro homem», Richard Brooman-White, Tim Milne e Peter Wilson, enfim toda a nata do «intelligence service» britânico. Desmond Bristow, o homem que viria a chefiar a secção ibérica do MI6 encontraria na sua rica casa de então, no número 6 de Chesterfield Gardens, aquele que, anos mais tarde, surpreenderia o mundo ao fugir para Moscovo revelando assim a verdadeira natureza do seu papel: Philby. E é, finalmente ele quem instiga Philby a escrever as suas memórias e assegura o contrato junto da editora André Deutch, avançando com três mil libras, a título de direitos autorais. Colocado no MI5, coube a Tomás Harris ser o gestor do agente Juan Pujol Garcia, cuja história já contámos, em traços gerais, nesta QC. Garcia havia sido localizado pelos britânicos quando, instalado na Costa do Estoril e por apetência pecuniária, habilitava os alemães com mensagens regulares acerca da situação social em Londres, que não conhecia por nunca lá ter ido e correndo o risco de ser descoberto por serem exíguos os seus conhecimentos acerca da vida britânica. Fiados nos dados que este seu agente «Arabel» lhes passava, os homens da Abwehr em Lisboa retransmitiam o núcleo essencial das informações para Berlim sem darem conta que, em Bletchley Park, nos arredores de Londres, as suas mensagens cifradas estavam a ser descodificadas pelos britânicos. Estes, localizado «Arabel» viriam a dar-se com o facto de o homem que tanto espanto lhes causava, pela ousadia da sua acção, ter contactado em Lisboa o adido naval americano o tenente Demorest, a quem ofereceu os seus serviços, facto que este de imediato transmitiu ao seu colega Benson, o adido naval da Embaixada britânica. Transferido para Inglaterra, aonde chegaria em 25 de Abril, via Gibraltar, cognominado agora como «Garbo» - pelo seu estilo cinéfilo - seria entregue aos cuidados do pintor, que, pondo ao serviço do caso a sua prodigiosa imaginação, delineou toda uma rede de agentes fictícios que, supostamente recrutados por«Arabel», estariam a passar aos nazis informações fidedignas, mas que mais não eram, afinal, do que a dieta cuidadosamente tratada pelo «W Board» e pelo«XX Committee»,os organismos aliados incumbidos da decepção estratégica alemã. Galardoado com uma OBE no final da Guerra, Harris receberia uma menção de apreço do próprio general Dwight Eisenhower, que lhe exprimiu o tributo de gratidão pelo contributo que, ao gerir o agente «Garbo», dera ao sucesso da causa aliada. De facto a sua ligação a Garcia acabou por criar uma tal relação que as duas criaturas eram praticamente indissociáveis. No dizer de Bristow, Pujol era a pessoa e Harris o cérebro. Nas suas memórias, escritas em parceria com «Nigel West» (alias o deputado britânico Rupert Alason), «Garbo» recorda a afectuosidade que Harris pusera no primeiro encontro entre os dois, ao abraçá-lo, mão por cima do ombro, com algo mais do que um gesto de protocolo: era um sinal de protecção que os uniria definitivamente. Minado pelo mundo da duplicidade, a sua vivência com Garcia continua, terminada a Guerra, pela Venezuela, onde este procura, finalmente, paz. Corre então que entre os dois surgiu um clandestino comércio de arte falsa, que passava, porém, como legítima, por obra e graça de certificados de autenticidade subscritos pelo próprio Anthony Blunt. Di-lo no seu livro de memórias, Desmond Bristow, um amigo comum, que cita como fonte a mulher de Pujol Garcia. Nas suas memórias «Garbo» nem uma palavra deixa que permita tal ilação. Recorda, sim, o último encontro com o artista que havia sido o gestor da sua vida, ocorrido em 1948 na ilha de Maiorca: desejoso de anomimato, pede-lhe então que ajude a criar o mito de que morrera. O inglês cumpre a sua parte. Fontes ligadas ao MI5 põe então em circulação que «Garbo» falecera em Angola, vítima de malária. Num seu livro sobre as operações de decepção Sefton Delmer, refere exactamente a mesma ideia, para a reforçar. Os últimos anos de Harris são finalmente vividos entre o território apetecível da Espanha, em Campo del Mar, perto de Palma de Maiorca e a casa de Londres, no número 1 de Logan Place. Só que a turbulenta vivência familiar vai corroendo a sua vida interior. Discussões frequentes e violentas com Hilda, sua mulher, multiplicam-se, tendo algumas como tema central e não se sabe a que propósito o próprio Philby. Uma delas, em Janeiro de 1964 teria decorrido, estando ele ao volante do automóvel. Irado, perderia o controlo, primeiro dos nervos e logo da viatura. O desastre foi inevitável. A morte também. Tinha então cinquenta e cinco anos de idade. A mulher morreria pouco depois. A morte de Tomás Harris daria origem, durante bastantes anos a tese especulativas. Na verdade, na sequência do acidente de viação, a polícia espanhola ao examinar a viatura nada de anormal encontrara na mecânica do mesmo a justificar o acidente. A mulher, que o acompanhava então, havia sido na altura igualmente incapaz de fornecer explicação plausível. Correndo na altura a «caça às bruxas» em torno de saber quem seria o «quinto homem», na sequência da explosiva revelação da ligação soviética de Philby/Burguess/MacLean/ e Blunt, e sendo Harris um candidato natural a um interrogatório pelo MI5 sobre estes seus passados companheiros, ficou a pairar a dúvida sobre o que se havia passado. Chapman Pincher no seu livro especula com a eventualidade de na origem da morte ter estado o próprio KGB. Richard Deacon não teve dúvidas em afirmar que Harris era precisamente uma das «toupeiras» soviéticas que haviam sido recrutadas no mundo da arte. Peter Wright, o autor do célebre «Spycatcher», após entrevistar em Agosto de 1962 Flora Solomon, uma russa sionista emigrada, embora ressalvando que lhe encontrou a típica paranóia russa pela conspiração permanente, cita-a como compartilhando a ideia de que Harris fora eliminado pelo KGB para não fazer revelações demasiado indiscretas. Foi preciso Desmond Bristow, amigo do casal, vir revelar, citando a viúva de Harris, a discussão tida no automóvel conduzido pelo malogrado pintor para que, finalmente, uma nova explicação viesse ao de cima. Só que, aqueles que poderiam, eventualmente, dar luz ao que se passou naquele fatídico dia, já cá não estão para nos esclarecer se foi realmente assim que tudo se passou. E, por causa disso, o desfecho final da história continuará em aberto, aberto a todas as interpretações.

11.3.06

Minox

[ continuação deste postal ]

O empenho pela Minox não decorria do facto de o os serviços secretos não terem já um significativo trabalho acumulado sobre aparelhos de natureza idêntica. Os alemães, por exemplo, haviam logrado construir a Robot, uma máquina susceptível de concretizar cinquenta disparos sem necessidade de rebobinar manualmente o filme, o qual era feito avançar, imagem a imagem, através de um motor movido a partir de uma simples mola de tensão. A questão é que a Minox tinha sido de facto um verdadeiro achado. Primeiro, pela capacidade de dissimulação que tal máquina apresentava. Dispensando o clássico fole destinado a aumentar a distância focal a Minox cabia no canto de uma mala ou num bolso de casaco sem levantar qualquer espécie de suspeitas. Além disso, a sua capacidade de armazenamento de película era assombrosa por proporção ao seu tamanho real: cinquenta fotografias por rolo. Finalmente, a extrema pequenez dos seus negativos possibilitava a sua fácil ocultação. Do ponto de vista dos acessórios tudo se conjugava para garantir aos espiões no terreno os meios necessários a uma actuação segura. Ele era o pormenor do cordão que permitia prender a máquina ao cinto das calças, ostentando nós em pontos regulares a distâncias fixas, permitindo fazer leituras exactas de focagem de maneira cómoda. Era o tanque de revelação absolutamente compacto de modo a permitir a efectivação de revelações em plena luz do dia e sem necessidade de recurso a uma câmara escura para o efeito. Era inclusivamente uma lente auxiliar para ampliação do negativo após revelação. Não faltava um tripé especialmente adaptado para fotografar documentos. Chegou-se a um ponto tão ostensivo que os inocentes catálogos já anunciavam a possibilidade de acoplar a máquina a uns binóculos para, através deles, obter fotografias a grande distância. Era a revelação sem sofismas da real utilidade da máquina. O seu foco de curtíssima distância tornava-a aliás o utensílio indicado para fotografar documentos. Muitos arquivos foram assim esventrados. Até à Minox o máximo na miniaturização pertencia à máquina suiça Tesssina. Utilizando o clássico filme de 35 mm esta máquina podia ser dissimulada dentro de um pacote de cigarros ou no interior de um livro, sendo as fotografias tiradas a partir de minúsculos orifícios inseridos no objecto em que a câmara estava dissimulada. O tempo encarregar-se-ia de a ultrapassar. Por alguma razão a Minox grangeou a sua lenda. Interessados no interesse desta máquina, os soviéticos cedo se entretiveram a copiá-la dando azo à Toyka 58-M, uma câmara tão diminuta que podia ser escondida por detrás de uma gravata e controlada a partir de um punho que o agente digitava a partir do bolso onde mantinha discreta a sua mão. Mais tarde, terminada a II Grande Guerra, a URSS viria a desenvolver, a partir de 1948 o modelo F2, largamente usado pelos agentes da KGB. Tratava-se de uma cópia do modelo Robot, dado que a máquina lograva também efectivar o rebobinar automático do filme, poupando assim o agente que a utiizase a ter de efectuar tal tarefa manualmente. Mas seria a Kiev 30 a câmara soviética que mais se aperfeiçoaria do modelo de Minox. Curiosamente, muitos dos agentes do KGB URSS no exterior receberiam para o seu trabalho não máquinas de fabrico soviético mas sim clássicas Minox’s. Foi o que se passou com George Blake e com John Walker. Blake, um místico convertido à espionagem, teve aliás algumas dificuldades de relacionamento com a máquina. Esperava-a mais pequena e mais manuseável. O seu controleiro soviético bem se esmeraria a gabá-la. Só pela força da necessidade conseguiria tornar-se exímio.

3.3.06

O Rei Carol, Nosso Senhor

[ continuação deste postal ]

Retido em Espanha, num exílio dourado, o rei Carol teria congeminado a eventualidade de se mudar para Portugal.Para tanto, o Ministro da Roménia em Lisboa avistara-se em quatro de Outubro de 1940 com o Embaixador Vianna, do MNE.Receoso e evasivo, o diplomata confiou ao papel a nota de conversa. Nesse fugidio apontamento, o Embaixador deu conta de que o representante romeno, que então recebera, havia-se encontrado em Barcelona com o monarca do seu país e por causa disso «desejaria pedir o apoio do Governo português a fim do rei poder vir para Portugal, visto achar-se retido, para não dizer detido, em Espanha a pedido do governo alemão, que recearia que de Portugal saísse para Inglaterra», razão pela qual Carol estaria «pronto a comprometer a sua palavra em que não sairia de Portugal» [AOS/CO/NE-1A,pt.18,fl. 316].Salazar leu o papel no dia 9 e o seu espírito geométrico e frio percebeu o essencial: o pedido da vinda de Carol para Lisboa tinha lógica e fundamento.A descrição que lhe servia de envelope tinha todos os ingredientes para poder ser aceite. Era um caso humano e um pedido moral.Nesse plano das realidades aparentes, duas eram as razões que o fundamentavam.Primeiro, porque Espanha era, no contexto, a pior de todas as soluções para permanência do rei.A estadia de Carol no país vizinho, tendo toda a comodidade possível para a situação, estava, de facto, agravada pela situação de liberdade vigiada, pois todos os seus movimentos eram espiados pela «Seguridad» e Portugal oferecia todo o ar apetecível de uma terra de liberdade de movimentos.Além disso, alegadamente a Portugal uniam-no laços ditos «sentimentais», que se não verificariam em relação a Madrid.E é aqui que surgem as sombras da suspeita. Salazar, rápido, intui e compreende.O pedido tinha de ser deixado aqui no rol dos esquecidos. Aceitar o monarca era bem pior do que agravar as tensões com os alemães, era reabrir o armário dos esqueletos da questão dinástica, que estava morta e enterrada, «entre naus e armaduras».Carol podia vir a por em crise já não a neutralidade internacional, mais até do que segurança interna mas, pior do que isso, ele atentava contra os próprios fundamentos do regime republicano, porque corporizava a eventualidade de restauração monárquica, interrompida com o falecimento de D. Manuel, II.Ele era o homem que podia ser rei.Para Salazar, para quem D. Manuel «falecera sem herdeiros nem sucessores», isso seria demasiado complexo. Carol era assim um problema a evitar.
A situação viria, entretanto, para o domínio público, através de um artigo que tinha todo o ar de haver sido plantado num jornal da periferia política, para o efeito de futura circularização da informação.Na sua edição de 07.11.41 o jornal de esquerda grego NEA publicara, de facto, um artigo curiosamente assinado de Paris com o seguinte texto [AOS/CO/NE-2 pt. 47, fl. 320] no qual se faziam como picantes revelações que «O ex rei da Roménia, Carlos, que há pouco tempo chegou a Lisboa com a sua mulher a ex senhora Lupesco (sic), pode em breve, se o quiser, candidatar-se ao trono de Portugal, que permanece vago desde a morte do rei D. Manuel II. Com efeito Carlos é e o ante neto da Rainha Maria de Portugal que pelo seu casamento com o príncipe alemão Fernando teve três filhos: Pedro V, que morreu quando da peste, Luís I, herdeiro de Pedro e uma filha D. Maria Antónia. Maria Antónia casou com Leopoldo de Hoenzollern e teve dele um filho, Fernando da Roménia, pai de Carlos. Dado que o ex rei Carlos é o descendente do ramo da dinastia portuguesa que permaneceu fiel à Constituição, ele tem, de acordo com certos historiadores mais direitos do que o actual pretende D. Duarte Nuno que é descendente do ramo que se opôs à Constituição e foi por isso expulso de Portugal. Por isso vários se perguntam em Lisboa se no fim Carlos irá reivindicar a Coroa portuguesa sobre a qual tem tantos direitos ou se, pelo contrário, preferirá ser restaurado no trono da Roménia, porque correm rumores de que Carlos está em vias de substituir o seu filho Miguel, que não goza da simpatia dos comunistas romenos».Era dossier arrumado.Só que o que se não queria que entrasse pela porta, apareceu-nos pela janela.Em 3 Março de 1941 ressoou o alarme: Carol fugira de Sevilha e surgira, inopinado em Portugal, na companhia da senhora Lupescu.
Ainda por cima a entrada no nosso país fizera-se por um local simbólico.
De facto, o percurso do rei Carol na sua precipitada fuga de Sevilha para Portugal faz um curioso itinerário, simbólico para os independentistas portugueses. Seguido à vista pela «Seguridad» espanhola, o monarca prevalece-se da potência do automóvel, que conduzia, e pretextando visitar a cidade de Llerena avança direito a estrada que de Santa Olalla por Fregenal de la Sierra, Gerez de los Caballeros e Almendral se dirige a Olivença. Perto da fronteira «o Rei e Madame Lupescu abandonaram o automóvel em que se tinham transportado e auxiliados pelas pessoas que os aguardavam, entre os quais o português Carlos Estebam Reynolds, que tem propriedades em Évora e Estremoz, internaram-se em Portugal, através de uma propriedade atravessada pelo Guadiana que naquele local serve de fronteira aos dois países» [AOS/CO/NE-1A, pt. 18, fls. 335/336]. Reynolds era um homem ligado ao «intelligence service» inglês.
A princípio, ninguém conseguia compreender.Em Sevilha a polícia secreta espanhola supostamente perdera-lhe o rasto.Os termos em que tudo se passara aumentavam a confusão reinante.Ainda por cima, as primeiras suspeitas estavam a ser «sopradas» contra a PVDE, a antecessora da PIDE, suposta ter feito a partida, para efeitos internos.A 5, pela tarde, autorizados a falar e amigos como sempre, os jornais de Madrid insinuavam que em Lisboa já se saberia da fuga.Agostinho Lourenço, o capitão de infantaria director da PVDE, desmultiplica-se em investigações com o refinado propósito de «sacudir água do capote».E, abre fogo em todos os azimutes.Primeiro demonstra, com pormenores, como e em que medida a segurança espanhola foi lentamente abrandada, em termos de a veloz máquina real poder galopar as planícies de Castela sem vigilância à vista de espécie alguma, Sua Majestade, exímio no acelerador.Depois atira a doer sobre os ingleses. Os indícios comprometiam.Perante isso, é todo um dossier que se abre agora.Se de facto não foram os ingleses quem exfiltraram o Rei Carol, bem se riram eles do sucedido.O Embaixador Sir Samuel Hoare, futuro Visconde Templewood, então chefe da diplomacia britânica em Madrid confiaria às suas memórias «Ambassador with a special mission, 1946»: «Serrano Suñer, depois de lhe prometer um refúgio seguro, internou-o em Sevilha, onde ele e a senhora Lupescu ficaram em confinanamento. O infeliz rei constantemente apelava para a minha pessoa, particularmente quando se tornou claro que os espanhóis pretendiam entregá-lo aos alemães. Havia pouco que eu pudesse fazer. De facto, tendo em vista o passado do rei, tinha bons motivos para ignorar o seu apelo. Mas ele era filho de um príncipe inglês e, além disso, fugia à Gestapo. Estas razões levaram-me a protestar contra a vigarice e desumanidade do Governo espanhol ao mantê-lo prisioneiro. Fiquei deliciado quando ele fugiu para Portugal».
O Rei Carol morreu em Portugal em 1953, os seus resto mortais foram transladados em 2003 para a sua Pátria de origem.

22.8.05

Graham Greene: uma vida secreta

Image hosted by Photobucket.comEm 2 de Outubro de 2004 completaram-se cem anos sobre o nascimento de Graham Greene. O autor de «O nosso homem em Havana» foi escritor sobre temas de espionagem e entre Julho de 1941 e Maio de 1944 foi agente do MI6, na área da contra-espionagem. Portugal seria também o seu alvo. Estávamos em plena segunda guerra mundial. Para comemorar o acontecimento proferi uma conferência em Sintra, na Casa-Museu Ferreira de Castro, em Dezembro daquele ano.
De tal conferência, ainda inédita, publiquei um resumo na revista Visão. Eis o texto do respectivo artigo.

Um homem que ficcionou a própria vida, vivendo-a duplamente e recriando-a ao contá-la, eis no campo literário, Henry Graham Greene: um escritor que conviveu com a realidade dos serviços secretos e disso faz narrativa para os seus livros. Perfazem-se no próximo dia 2 de Outubro, cem anos que ele nasceu.
A sua vida foi controversa, as biografias que se lhe dedicaram também.
O professor americano Norman Sherry levou doze anos a escrever dois volumes de uma obra sobre ele, que projectara em três tomos. Ao ter entrado no segundo momento desse seu aturado trabalho, o biografado morreu-lhe. Estava-se em 1989. Graham Greene faleceu em Vevey, um lugar aprazível para se viver.
Michael Shelden seguiu-lhe os passos, tentando encontrar a verdadeira natureza desse personagem ambíguo, dissimulado, evasivo.
Entrado na «disciplinada e digna fileira dos mortos», Graham Greene é ainda hoje um homem e uma colecção de máscaras da sua pessoa.
O essencial da sua vida pública resume-o à escrita.
O grande público associa-o nomeadamente a guiões para filmes, até porque muitas das suas obras acabaram vertidas para cinema. E não foi só «O Americano Tranquilo», essa narrativa parcialmente auto-biográfica, que descreve parte das suas andanças pelo Vietname. A sétima arte acolheu também muitos outros dos seus trabalhos, alguns em adaptações. É o caso de «O Terceiro Homem», em que Orson Welles tem um desempenho notável, e tantos outros.
Escritor laureado, mas que nunca chegaria a receber o prémio Nobel da literatura, na obra de Greene o tema da espionagem tem, porém, uma incidência muito significativa. Livros como «O nosso homem em Havana», «O Factor Humano», «O Agente Confidencial», ou são histórias vividas no âmago dos serviços de informações ou narrativas para cuja construção o envolvimento de Greene nos serviços secretos foi determinante.
O mundo secreto é uma experiência importante na sua vida.
Greene trabalhou pouco na espionagem e escreveu muito sobre a espionagem.
Parte do seu percurso nos serviços secretos tem a ver com Portugal, durante a Segunda Guerra.

Escritor já consagrado, Graham Greene envolveu-se com os serviços secretos desde o verão de 1941, quando foi recrutado para trabalhar no SIS (MI6), sendo-lhe atribuído o número 59 200.
Na altura estava ligado ao jornalismo, como correspondente do «Spectator».
O seu primeiro posto foi em Freetown, a capital da Serra Leoa. Em princípio o seu destino seria a Libéria, mas o que escrevera no livro «Journey without maps» tornava-o «persona non grata» no país.
A função não era muito significativa, caracterizando-se mais como a de um polícia colonial. Michael Sheldon chamou-lhe «uma comédia de erros».
Cabia-lhe coordenar informações sobre o movimento marítimo no porto, tanto no que se refere a contrabando, como à passagem de passageiros suspeitos.
Os seus planos acabaram por nunca vingar. A ideia de criar um bordel ao serviço da contra-espionagem britânica, por exemplo, encalharia com a noção de que os franceses já faziam concorrência, por essa mesma forma.
Do que ali viveu recolheu matéria-prima humana para a sua escrita.
No mais, o seu dia a dia era de uma monotonia depressiva. Para a vencer, o espírito irrequieto de escritor fez a sua aparição. Greene descobriu que o livro de códigos para as mensagens cifradas continha grupos de cinco letras para as palavras de uso mais frequente. O paradoxo é que entre essas palavras estava «eunuco», uma menção aparentemente insólita para os serviços secretos. Greene não perdeu a oportunidade para ironizar e ao responder a um convite para uma festa de Natal do seu colega em Bathurst, codificou a mensagem «tal como o eunuco, eu não posso vir».
Terminada a missão africana, regressado a Inglaterra, em Fevereiro de 1943, o escritor integrou o «desk» português no sector ibérico da Secção V do MI6, os serviços incumbidos da contra-espionagem no estrangeiro.
Dirigia-o então Harold Russel («Kim») Philby, que escandalizaria o mundo ao fugir em 1963 para a União Soviética, revelando-se como «o terceiro homem» da rede de espiões pró-soviéticos. Curiosamente, «O Terceiro Homem» é um dos mais conhecidos livros de Greene, levado ao cinema pelo realizador Carol Reed.
A Secção V era uma pequena unidade, que primeiro viveu na localidade de St. Albans, no condado de Hertfordshire, e em Julho de 1943 se transferiria para Ryder Street, em Londres, precisamente para o local onde viria a ter sede a prestigiada revista «The Economist».
Concentrava-se ali o esforço de coordenação da contra-espionagem britânica no estrangeiro. O serviço estava organizado segundo critérios geográficos, conforme os países onde se situava a acção.
Um dos «desks» era o ibérico, incumbido de coordenação das estações do MI6 de Madrid, Lisboa, Gibraltar e Tânger.
A actuação contra a espionagem inimiga era particularmente relevante, sobretudo em Portugal.
Protegidos pela prática da política de «neutralidade colaborante» de Oliveira Salazar, os espiões do Eixo nazi fascista pululavam em Lisboa.
Uma das tarefas do «desk» era manter um ficheiro actualizado sobre essa rede, o «Purple Primer», articulando medidas ofensivas contra as suas actuações.
Apesar de mal falar português, Greene terá desempenhado um razoável papel. Disse-mo Charles de Salis, um agente do MI6 em Lisboa, quando o entrevistei há uns anos, na sua residência no sul de Inglaterra.
Só que, na verdade, aquilo que os arquivos registam, não há intervenções suas que se possam considerar decisivas. Philby, apesar de muito seu amigo, não se coibiu de dizer que Greene e Malcom Muggeridge, outro escritor que ele recrutou para o MI6 e que foi colocado em Lourenço Marques, apenas contribuíram para a boa disposição do serviço.
O que os seus biógrafos acolhem são acontecimentos ocorridos no seu tempo, como que a supor que ele seguramente não seria a eles alheios. Apenas isso.
É o caso de «Garbo», o catalão Juan Pujol Garcia, que a partir da linha do Estoril e desde 1941 mistificava os alemães vendendo-lhes falsa informação, e que acabaria por ser recrutado em 1942 pelos britânicos, cuja rede de agentes duplos (o XX Committee) serviu com larguíssimo sucesso, colaborando decisivamente na indução em erro das tropas de Hitler quanto ao local de desembarque no dia-D.
Greene nunca esteve envolvido directamente no caso de «Garbo», cujo recrutamento foi accionado em Lisboa por Eugene Risso-Gill, e cuja gestão cabia ao pintor e negociante de arte Thomas Harris; mas como confessou mais tarde no seu livro «Ways of Escape», a fascinante personagem deste serviu-lhe de base e fundamento para o seu romance «O Nosso Homem em Havana», a fantástica narrativa de Wormold que enganava os serviços secretos vendendo-lhes esquemas de aspiradores como se fossem rampas de lançamentos de mísseis e sacando proventos em nome de uma vasta rede de fictícios informadores.
Desmond Bristow, que estava na Secção V em Londres à data, e com quem falei na sua residência em Espanha, pouco antes do seu falecimento, omite qualquer menção a Greene neste caso.
Outro caso em que Greene aparece por vezes erroneamente referenciado é o de Otto John, que foi advogado da Lufthansa em Lisboa que, estando implicado, conjuntamente com o conde Stauffenberg, na conspiração para assassinar Adolph Hitler, se refugiou em Lisboa, de onde foi exfiltrado através da actuação de Rita Winsor com a insólita conivência do capitão Catela da PVDE, que, para esse efeito o prendeu no Aljube, protegendo-o dos agentes da Gestapo. Se bem que Rita Winsor, Graham Maingott e Cecil Gledhill fossem agentes locais do MI6 em Lisboa, a verdade Graham Greene nada teve a ver com o assunto porque à data já se havia demitido do MI6. Conforme John refere nas suas memórias («Twice Through The Lines»), quem ele contactou em Londres, muito antes da sua fuga foi Hugh Greene, o irmão mais novo do nosso homenageado, que fora correspondente do «Daily Telegraph» em Berlim, viria a colaborar com ele numa antologia de contos sobre os serviços secretos, que circularia com o apelativo título «The Spy's Bedside Book» e terminaria como director-geral da BBC.
No mais, a lenda sobre Greene e que Greene ajudou a fabricar, faz supor a sua intervenção em situações em que não esteve sequer envolvido.
Greene, por exemplo, nada terá tido a ver com a minuta do relatório sobre a actividade ostensiva de agentes do Eixo em Portugal que o embaixador britânico em Lisboa, à data, Sir Ronald Campbell, submeteu a Oliveira Salazar, o presidente do Conselho de Ministros, para o embaraçar e exigir medidas drásticas de retaliação. Isto demonstra-se porque o relatório, que está na Torre do Tombo, tem a data de 2 de Março de 1943 e, no entanto, nesse momento, Greene ainda não havia chegado à Secção V.
Greene veio a Portugal sucessivas vezes após a sua saída dos serviços secretos.
O Padre Leopoldo Durán, seu amigo e confidente, regista, numa biografia que escreveu sobre a sua pessoa, esses passeios. O escritor ficava hospedado na casa da sua amiga Maria Newall, que conhecia dos tempos da sua estadia no Quénia, e que vivia em Sintra, na Quinta da Piedade, na casa da duquesa do Cadaval. Numa dessas ocasiões Greene imagina a ideia, que não chega a realizar, de entrevistar o major Otelo Saraiva de Carvalho.
Em Sintra Greene vive um episódio risonho, ao tentar localizar a casa romântica onde vivera Lord Byron. Aborda, para o efeito, um casal transeunte e pergunta-lhes pelo local. «Esse senhor Byron ainda vive aqui?», perguntam eles, inocentes de todo quanto àquele expoente da cultura britânica. «Não, acho que já partiu há muito tempo», responde, com divertida ironia, o autor de «The End of the Affair».
Diminuto na sua intervenção nos serviços de informações, Graham Greene é uma figura notória essencialmente pela sua filosofia acerca do «establishement» da comunidade das informações.
Católico de origem, nada puritano de comportamento, radical politicamente, Greene deixou-se seduzir pelos ícones da esquerda. As suas simpatias por Cuba desencadearam a ira dos meios conservadores.
Neste contexto, a ideia que tem sobre os serviços secretos é altamente crítica. Essencialmente um oficial do MI6, agindo no exterior, na área da contra-espionagem, Greene considerava um insulto o imaginar-se que ele pudesse estar envolvido nos serviços de segurança do MI5, porque isso implicaria o ter de espiar os seus próprios concidadãos.
Mas foi em relação a «Kim» Philby, o trânsfuga mais odiado de toda a rede de infiltrados do KGB nos serviços secretos britânicos, que ele materializou o seu ressentimento.
Primeiro, prefaciou o livro de memórias que Philby editou a partir de Moscovo («My Silent War»), aproveitando o ensejo para lançar ali algumas frechas venenosas sobre os serviços que anteriormente servira, nomeadamente ao perguntar-se, relativizando a atitude de Philby, quem não teria traído alguma vez algo mais importante do que um país.
Depois, aceitou em 1968 visitar Philby na URSS, algo que os soviéticos haviam organizado com o propósito de recuperar a imagem pública daquele. Genrikh Borovik, que, por conta do KGB, se incumbira de tal operação, recorda a simpatia desse momento histórico.
Entre 1987 e 1988 três novas visitas teriam lugar à pátria dos sovietes.
Por tudo isto uma aura de suspeita rondaria a sua pessoa.
Que Greene pudesse funcionar como uma «hotline» entre os serviços secretos britânicos e o KGB é, no dizer sugestivo de Anthony Cave Brown, que escreveu a biografia de «C», Stewart Menzies, o patrão máximo do MI6 entre 1939 e 1952, «demasiado não plausível para ser plausível».
Escritor prestigiado, de formação católica, a fama de Greene não resistiu ao excesso de anti-americanismo que caracterizou muitas das suas atitudes e sobretudo o envolvimento com Philby. O FBI vigiou-o por causa disso.
Por isso, quando em 9 de Maio de 1944 resignou à sua função no MI6 pairou a dúvida sobre a verdadeira razão por que o fizera naquele momento. É que um mês depois seria o dia-D, o desembarque do exército aliado nas praias da Normandia.
De aí em diante distanciar-se-ia. Colocado primeiro no PWE, o «Political Warfare Executive», incumbido de funções no campo da propaganda em França, manter-se-ia disponível para agir episodicamente como «correspondente honorário». Hoje, a lenda suplanta o homem.

21.8.05

Thomas Harris, do MI5 e o seu alter «Garbo»

Especulou-se sobre o desastre automóvel em que morreu. Protegeu «Kim» Philby e foi amigo Desmond Bristow. Gerindo o agente «Arabel», criou o célebre «Garbo». Pintor, fazia da espionagem também uma arte.

Estudei um pouco a sua vida. Eis o que julgo saber.


Falar de Tomás Harry é seguramente contar a história do agente catalão Juan Pujol Garcia, cuja carreira ele geriu. Só que o personagem é bem mais rico do que isso e resiste a muitas simplificações, não se livrando porém, como se fosse ele próprio também um objecto estético, à duplicidade das interpretações sobre a verdadeira natureza da sua vida. Ainda hoje, anos volvidos sobre a sua morte, as suspeitas sobre a lealdade ensombram a sua lenda, havendo quem, nas ligações pessoais comprometedoras que manteve, veja um elemento de ligação à causa soviética à qual foram fiéis muitos dos seus amigos de então.
Citando Anthony Blunt, o jornalista Chapman Pincher, no seu provocante livro «Their trade is treachery», publicado em 1981, imputa-lhe ideias marxistas mas ressalva que, segundo Blunt, ele não seria um agente russo, pelo menos tanto quanto lhe tinha sido dado observar. Mas já nas memórias que, sob o título «A Game of Moles», editou em 1993, Desmond Bristow citaria a sua própria mulher como partilhando da convicção de que tal ligação era real e demonstrada pelos factos.
Mas é na estética e na arte das sombras e da ambiguidade que se revêm os traços essenciais da sua personalidade multiforme, que Philby consideraria ser a de um espírito intuitivo brilhante.
Nascido em Londres em 1908, filho de pai britânico e de mãe espanhola, a sua vida ficaria duplamente hipotecada à sua ascendência. Do pai Lionel, judeu de origem, herdaria a apetência pela arte espanhola, do mobiliário à cerâmica, dos tapetes à joalharia. Da mãe Enriqueta - também o de uma das suas três irmãs - o gosto pela própria Espanha, na qual viveria alguns anos até à sua morte ocorrida em 1964 em circunstâncias trágicas e enigmáticas.
A galeria de arte ibérica que a família abriria em Conduit Street, ao ser frequentada por altos dignitários e por figuras da realeza, daria a todos a afluência de meios financeiros que os protegeria dos acasos da má fortuna.
Formado numa das mais importantes escolas de arte britânicas e então - a «Slade School of Art» -, completaria a sua formação em Roma, onde ganharia desenvolvimento o seu profundo conhecimento de Goya, de que se tornaria um dos mais reputados especialistas, e de El Greco.
Não desdenhando uma oportunidade comercial, aproveitaria o período da Guerra Civil espanhola para viajar até Espanha e comprar a preços reduzidos peças valiosas que os refugiados transaccionavam por aflição.
Datará dessa ocasião o seu conhecimento com «Kim» Philby, então colocado em Burgos, junto das tropas do Generalíssimo Franco, na qualidade de correspondente do jornal britânico «The Times».
Mas o que é certo é que a partir desse período está intrinsecamente ligado ao «círculo de Cambridge».
Em 1937 uma exposição que a família promove para contribuir para a Cruz Vermelha espanhola é inaugurada nas galerias do Courtlaud Institute pelo curador de quadros da Coroa, nada mais do que Anthony Blunt, «o quarto homem» do grupo que trairá a Grã Bretanha em favor da URSS.
Com o começo da Segunda Grande Guerra, Tomás e sua mulher são recrutados por outro elemento do mesmo grupo, Guy Burguess, respectivamente como cozinheiro e governanta da secção D do MI5, sendo mais tarde transferidos para o SOE, o serviço de operações especiais e clandestinas, por recomendação de mesmo Burguess.
As irmãs, Conchita, Enriqueta e Violeta, integrariam também os serviços do MI5, na secção BI (a).
Com o fim do SOE, o casal mantém-se na secção D, na altura em que Anthony Blunt desempenhava ali funções de assistência da direcção.
E é ele quem, em 1941, recomenda precisamente «Kim» Philby, primeiro para a secção de pessoal do MI6 e mais tarde como possível chefe da sub-secção ibérica da Secção V do MI6, o que vem a suceder sendo que ele próprio viria a chefiar a secção ibérica do MI5.
Como nas suas memórias («My five Cambridge Friends») recordaria Yuri Modin, o «controleiro» soviético de Philby (o agente «Stanley», para o KGB), ao sugerir o nome de Philby, cujos artigos do tempo da Guerra Civil espanhola eram então sobejamente conhecidos, Harris não esqueceria referir que o pai de «Kim» era amigo de Valentine Vivian, então na direcção da secção V, contribuindo, deste modo arguto, decisivamente para uma escolha formidável para a causa soviética.
E é em sua casa, nas festas que regularmente animam a vivência social que partilhava com os eleitos amigos, que se cruzam Philby, Blunt, Burguess e, por vezes, Victor Rotschild, Donald MacLean, «o terceiro homem», Richard Brooman-White, Tim Milne e Peter Wilson, enfim toda a nata do «intelligence service» britânico.
Desmond Bristow, que eu ainda conheci vivo, o homem que viria a chefiar a secção ibérica do MI6 encontraria na sua rica casa de então, no número 6 de Chesterfield Gardens, aquele que, anos mais tarde, surpreenderia o mundo ao fugir para Moscovo revelando assim a verdadeira natureza do seu papel: Philby.
E é, finalmente ele quem instiga Philby a escrever as suas memórias e assegura o contrato junto da editora André Deutch, avançando com três mil libras, a título de direitos autorais.
Colocado no MI5, coube a Tomás Harris ser o gestor do agente Juan Pujol Garcia.
Garcia havia sido localizado pelos britânicos quando, instalado na Costa do Estoril e por apetência pecuniária, habilitava os alemães com mensagens regulares acerca da situação social em Londres, que não conhecia por nunca lá ter ido e correndo o risco de ser descoberto por serem exíguos os seus conhecimentos acerca da vida britânica.
Fiados nos dados que este seu agente «Arabel» lhes passava, os homens da Abwehr em Lisboa retransmitiam o núcleo essencial das informações para Berlim sem darem conta que, em Bletchley Park, nos arredores de Londres, as suas mensagens cifradas estavam a ser descodificadas pelos britânicos.
Estes, localizado «Arabel» viriam a dar-se com o facto de o homem que tanto espanto lhes causava, pela ousadia da sua acção, ter contactado em Lisboa o adido naval americano o tenente Demorest, a quem ofereceu os seus serviços, facto que este de imediato transmitiu ao seu colega Benson, o adido naval da Embaixada britânica.
Transferido para Inglaterra, aonde chegaria em 25 de Abril, via Gibraltar, cognominado agora como «Garbo» - pelo seu estilo cinéfilo - seria entregue aos cuidados do pintor, que, pondo ao serviço do caso a sua prodigiosa imaginação, delineou toda uma rede de agentes fictícios que, supostamente recrutados por«Arabel», estariam a passar aos nazis informações fidedignas, mas que mais não eram, afinal, do que a dieta cuidadosamente tratada pelo «W Board» e pelo«XX Committee»,os organismos aliados incumbidos da decepção estratégica alemã.
Galardoado com uma OBE no final da Guerra, Harris receberia uma menção de apreço do próprio general Dwight Eisenhower, que lhe exprimiu o tributo de gratidão pelo contributo que, ao gerir o agente «Garbo», dera ao sucesso da causa aliada.
De facto a sua ligação a Garcia acabou por criar uma tal relação que as duas criaturas eram praticamente indissociáveis. No dizer de Bristow, Pujol era a pessoa e Harris o cérebro.
Nas suas memórias, escritas em parceria com «Nigel West» (alias o deputado britânico Rupert Alason), «Garbo» recorda a afectuosidade que Harris pusera no primeiro encontro entre os dois, ao abraçá-lo, mão por cima do ombro, com algo mais do que um gesto de protocolo: era um sinal de protecção que os uniria definitivamente.
Minado pelo mundo da duplicidade, a sua vivência com Garcia continua, terminada a Guerra, pela Venezuela, onde este procura, finalmente, paz.
Corre então que entre os dois surgiu um clandestino comércio de arte falsa, que passava, porém, como legítima, por obra e graça de certificados de autenticidade alegadamente subscritos pelo próprio Anthony Blunt. Di-lo no seu livro de memórias, Desmond Bristow, um amigo comum, que cita como fonte a mulher de Pujol Garcia.
Nas suas memórias «Garbo» nem uma palavra deixa que permita tal ilação. Recorda, sim, o último encontro com o artista que havia sido o gestor da sua vida, ocorrido em 1948 na ilha de Maiorca: desejoso de anomimato, pede-lhe então que ajude a criar o mito de que morrera.
O inglês cumpre a sua parte.
Fontes ligadas ao MI5 põe então em circulação que «Garbo» falecera em Angola, vítima de malária.
Num seu livro sobre as operações de decepção Sefton Delmer, refere exactamente a mesma ideia, para a reforçar.
Os últimos anos de Harris são finalmente vividos entre o território apetecível da Espanha, em Campo del Mar, perto de Palma de Maiorca e a casa de Londres, no número 1 de Logan Place.
Só que a turbulenta vivência familiar vai corroendo a sua vida interior.
Discussões frequentes e violentas com Hilda, sua mulher, multiplicam-se, tendo algumas como tema central e não se sabe a que propósito o próprio Philby.
Uma delas, em Janeiro de 1964 teria decorrido, estando ele ao volante do automóvel.
Irado, perderia o controlo, primeiro dos nervos e logo da viatura.
O desastre foi inevitável.
A morte também.
Tinha então cinquenta e cinco anos de idade.
A mulher morreria pouco depois.
A morte de Tomás Harris daria origem, durante bastantes anos a tese especulativas.
Na verdade, na sequência do acidente de viação, a polícia espanhola ao examinar a viatura nada de anormal encontrara na mecânica do mesmo a justificar o acidente. A mulher, que o acompanhava então, havia sido na altura igualmente incapaz de fornecer explicação plausível.
Correndo na altura a «caça às bruxas» em torno de saber quem seria o «quinto homem», na sequência da explosiva revelação da ligação soviética de Philby/Burguess/MacLean/ e Blunt, e sendo Harris um candidato natural a um interrogatório pelo MI5 sobre estes seus passados companheiros, ficou a pairar a dúvida sobre o que se havia passado.
Chapman Pincher no seu livro especula com a eventualidade de na origem da morte ter estado o próprio KGB. Richard Deacon não teve dúvidas em afirmar que Harris era precisamente uma das «toupeiras» soviéticas que haviam sido recrutadas no mundo da arte.
Peter Wright, o autor do célebre «Spycatcher», após entrevistar em Agosto de 1962 Flora Solomon, uma russa sionista emigrada, embora ressalvando que lhe encontrou a típica paranóia russa pela conspiração permanente, cita-a como compartilhando a ideia de que Harris fora eliminado pelo KGB para não fazer revelações demasiado indiscretas.
Foi preciso Desmond Bristow, amigo do casal, vir revelar, citando a viúva de Harris, a discussão tida no automóvel conduzido pelo malogrado pintor para que, finalmente, uma nova explicação viesse ao de cima.
Só que, aqueles que poderiam, eventualmente, dar luz ao que se passou naquele fatídico dia, já cá não estão para nos esclarecer se foi realmente assim que tudo se passou.
E, por causa disso, o desfecho final da história continuará em aberto, aberto a todas as interpretações.


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