23.3.06

Henry Graham Greene, o nosso agente para Portugal


Graham Greene não só esteve ligado aos serviços secretos entre Julho de 1941 e Maio de 1944; ele viveu toda uma série de vidas secretas, entre 1904 e 1991, as datas do seu nascimento e da sua morte.Aliás, toda a sua vida foi vivida como se em compartimentos, de que se conhece apenas o homem do exterior.Greene é hoje tido como um ícone da escrita católica mas, no entanto, a atentar no seus biógrafos, tem por detrás de si toda uma vida de adultério e de desregramento sexual pouco compatíveis com a castidade que a Igreja de Roma supõe nos seus fiéis.Greene passa por ser um referencial para a esquerda política, por causa do seu anti-americanismo primário mas, afinal, foi amigo próximo do ditador Omar Torrijos e também de Manuel Noriega, cuja ligação à mais negra equação entre a política repressiva e o narcotráfico é uma nódoa na história do Panamá.Há quem veja Greene como um homem de despojamento e simplicidade, mas houve outros que o surpreenderam em plena apetência «dandy» pelo luxo e pelo refinamento.Greene é, no subconsciente de muitos, quase como um homólogo de «O Americano Tranquilo», o angustiado jornalista que ele situa no conturbado Vietname mas, nele, a ideia do suicídio actua numa perseguição obsessiva. Para a verdade ou para a lenda, uma sessão de roleta russa em que teria estado envolvido na juventude simboliza, em verdadeira tragédia dostoeievskiana, o desespero de uma vida sem sentido nem finalidade.A sua vida pessoal organizou-a sempre numa lógica de duplicidade, curiosa situação para um membro da restrita «Order of Companions of Honour», da qual a Rainha era o primeiro membro, e cujo «motto» era «na acção fiel, na honra, claro» [«in action faithful, and in honour clear»].Aos vinte e um anos, na mesma noite em que, membro recente do Partido Comunista da Grã-Bretanha, visita Paris e assiste a soturnas reuniões de operários, nas quais se aborrece de morte, visita o «Concert Mayol» e delicia-se em espectáculos de «topless», que se prolongam pela noite adentro.Casado em 15 de Abril de 1927 com Vivienne Dayrell-Browning, a quem dedicou «com todo o meu amor» o livro «Stanboul Train», foi coleccionando paixões ostensivas que vivia clandestinamente e paixões clandestinas que vivia de modo escandalosamente ostensivo.Numa frase lapidar, o padre Leopoldo Durán, que seria seu amigo e confidente e que lhe administraria os últimos sacramentos e a quem ele dedicaria também o livro «Monsignor Quixote», escreveria numa sua biografia que aquele casamento era um equívoco: ele não deveria ter casado e ela não deveria ter casado com ele. No entanto nunca se divorciaram.Na sua vida as mulheres sucedem-se.Em Londres, antes da Segunda Guerra, já casado, apaixona-se por Dorothy Glover.Tentando encontrar um espaço para este seu enamoramento simula, em 1938, a necessidade de um local sossegado para escrever, longe do bulício do lar conjugal, e aluga para tanto um pequeno estúdio perto de Bloomsbury.Na altura o seu ser emotivo está exausto. Produz incessantemente à força de uma droga estimulante, a Benzedrine, uma anfetamina que o lança ao fim de cada dia num estado de autêntico naufrágio nervoso.No prefácio ao livro «The Confidential Agent» diria, justificando-se em público, que «essas semanas de Benzedrine foram mais responsáveis pelo fim do meu casamento do que a separação provocada pela guerra». E, no entanto, o casamento não findou.É aí, nesse esconderijo secreto, que Greene e Dorothy se encontram regularmente até 1940.Paixão erótica e envolvimento literário entrechocam-se num tresloucamento sem medida. Londres vive então os momentos dramáticos e tensos dos bombardeamentos alemães, o «Blitz».Vergados ao confinamento dos abrigos e ao «blackout», ambos se ocupam a produzir histórias para crianças; Greene escreve-as e Dorothy, que usara no teatro o nome artístico de «Dorothy Craigie», ilustra-as.Entretanto, levam a ousadia ao ponto de fornicarem quase em público nos abrigos subterrâneos.O escritor estava então colocado no ARP [Air Raid Precautions] e sujeito por isso a estritos deveres profissionais. Foi em contravenção com os mesmos que um dia foi surpreendido em coito flagrante com aquela a quem dedicaria o citado livro «The Confidential Agent».Mas não seria só com esta sua companheira literária que se daria a vida dupla face a um matrimónio de que nunca se desligaria.A ligação entre ambos não teria como factor determinante a sua apetência física. Uma sua rival, apoucando-a na sua fealdade e na sua pequenez, chamar-lhe-ia «aquele horrível anão». Ora seria a esfuziante beleza que atiraria Greene para os braços de uma outra mulher.Aqui a sedução ocorreria de modo inverso: ela procurá-lo-ia, ele queria ser encontrado.Tudo começou do modo mais extravagante.Catherine Compton Walston era a esposa de um riquíssimo homem de negócios britânico. Uma bela manhã, em 1946, o seu avião particular aterra perto da casa do escritor. De dentro da aeronave sai uma esbelta mulher, então com trinta anos.Uma tímida Vivienne Greene recebe-a.A visita traz um inesperado pedido. Americana de origem, decidira converter-se ao catolicismo e pretende que o autor de «The Lawless Roads» seja o seu padrinho de baptismo.Um ano depois, padrinho e afilhada envolvem-se num relacionamento que traz, pela natureza do sacramento que os une, um travo incestuoso.Sexo clandestino, a princípio, aquele que os atrai, recebe, para o dissimular, um nome de código, que ambos combinam como o santo e a senha para os seus encontros íntimos: «onions» [cebolas].A sacrílega ligação entre a religião e o sexo não era, porém, estranha a Catherine Walston. Já há alguns anos ela havia desenvolvido um peculiar fetiche erótico, envolvendo-se sexualmente com membros do clero. Di-lo um dos biógrafos de Greene, logo um dos mais polémicos, Michael Shelden.União decadente, esta dava ao escritor a possibilidade de ver realizadas as suas mais negras fantasias. Com ela se transpuseram os limites do convencional.Entre ambos forjou-se «o mundo de mim próprio» que Greene daria como título a uma das suas obras terminais, um diário onírico da sua privacidade íntima, aquela que o subconsciente liberta no acto de sonhar.Odisseias inconfessáveis foram então atingidas entre ambos.Em 1950, estando Greene em Veneza a filmar «The Stranger's Hand» tê-la-à feito acompanhá-lo a um bordel, vestida de homem e caracterizada como tal, ambos com um amigo comum, que relataria quanto ela «gozara como um homem» o que ali se podia fruir.Amor insano e demencial, terminaria em 1948. Nessa altura Greene iniciou a escrita de um dos seus mais aclamados livros, «The End of the Affair». Deliberadamente dedicou-lho, mencionando «para C.» na edição inglesa e «para Catherine» na edição americana.Mas não se ficaria por aqui.A sua sexualidade era compulsiva. A sistemática apetência por prostitutas ocupava o espaço restante dos seus amores adúlteros mais duradouros.Uma sua terceira ligação sexual, frívola que tivesse sido, traz no seu âmago, por igual, a marca indelével da ambiguidade.Jocelyne Rickards era amante do filósofo A. J. Ayer quando Greene a conheceu. O seu envolvimento foi intenso.Ela proporcionava-lhe o regresso às aventuras arriscadas de sexo em público e o «frisson» de poderem ser apanhados. Um dia, numa viagem de comboio, chegaram ao ponto de imaginar que as autoridades os esperavam na estação terminal. Mas, com o seu estilo andrógino, Jocelyne dava a Greene a oportunidade de um jogo dúplice, o de sentir como se tivesse em simultâneo um rapaz e uma rapariga nos seus braços. Palavras suas. * Tudo isto vem a propósito do tema que nos traz aqui.Não está em causa a devassa sobre o que possa ter sido a vida íntima ou sexual de uma pessoa que, como escritor, chegou a estar perto de receber o prémio Nobel da Literatura. Trata-se apenas de mostrar em que medida a duplicidade e o secretismo são nele não só um tema de literatura mas, também, um modo particular de ser.Poderá especular-se sobre as razões que o levam a integrar-se nos serviços secretos.A razão pecuniária não seria determinante, embora o salário de 700 libras anuais, acrescidas de outras 100 libras a título de ajudas de custo quando vivesse no estrangeiro, fosse seguramente algo melhor do que os réditos de escritor ainda não confirmado.Também não teria necessariamente que existir a grandeza do servir uma causa, pois nenhum envolvimento patriótico digno desse nome se lhe conhece, embora seguramente não tivesse, à data, nenhuma espécie de hesitação quanto ao lado que deveria servir nesse conflito que dilacerava o mundo.Aquilo que a sua biografia evidencia é que, vivendo secretamente uma natureza humana complexa, Graham Greene serviria o seu país naquele momento de «sangue, suor e lágrimas» mais naturalmente inserido nos serviços secretos do que nos quadros de um exército regular.A apetência pela «quinta coluna» é assim, apenas, um momento mais na sua biografia clandestina.Os seus primeiros anseios pela espionagem haviam-lhe surgido na década de vinte.Em 1923 visita o Ruhr na Alemanha. Tinha dezanove anos de ilusões.A situação que ali se vivia era deveras complexa, pois a Alemanha estava em mora com o pagamento das pesadas indemnizações a que ficara adstrita por força do clausulado no Tratado de Versalhes e que, em 1921, somavam seis biliões e seiscentos milhões de libras e dívidas de guerra.Nessa altura, forças clandestinas ligadas à França executavam uma operação secreta visando a criação de uma Renânia independente, que seria declarada, embora com efémera duração, em 21 de Outubro de 1923. A ideia seria, no fundo, fazer reverter para as forças ganhadoras as riquezas carboníferas da região.Para tanto, a polícia e os serviços secretos franceses e belgas haviam infiltrado nesta parte da Alemanha todo um corpo de agitadores, da mais baixa extracção, que se dedicavam, de modo orquestrado, a actividades de agitação e propaganda.Animado dos melhores propósitos, Greene lança-se numa viagem com o propósito romântico de ajudar a causa alemã.A sua acção, apesar de financiada pelo conde Bernstorff, dos serviços secretos alemães, seria completamente ineficaz, tão ridículos eram os propósitos e ingénuos os meios.A história resolveria, entretanto, o problema que ele pretendia resolver: através do plano Dawes, a Alemanha conseguiu reprogramar a sua dívida. Em 1927, minado por ansiedade crescente e havendo-lhe sido, entretanto, diagnosticada epilepsia, Greene insiste na ideia.Numa carta para Vivien, escrita em 26 de Novembro de 1926, desdobra-se na menção a lugares aonde gostaria de viajar.A sua intranquilidade está no auge. Deseja-se no Peru, em Avignon, no México, em São Francisco, no Antárctico e em Sintra.Para resolver os seus problemas financeiros, deseja ser um escritor de renome.Mas, ao receber da Alemanha uma série de livros sobre temas económicos e políticos, a vontade de ser espião possui-o de novo.«Talvez o ser espião seja o meu passatempo preferido», revela ele à que seria sua mulher, a quem pergunta, incerto de que ela aprove a ideia: «Casarias tu com um espião alemão?».Casaria sim, no ano seguinte, mas com quem viria a ser um espião britânico contra os alemães.O país que ele queria ajudar, nos anos vinte, não terminaria a década de trinta sem estar em guerra com a Inglaterra de que ele era um cidadão emérito.Greene escreveria no «The Confidential Agent», pondo a frase na boca de uma heroína do livro: «você escolhe o seu lado de uma vez por todas; é claro que pode ser o lado errado. Só a História o dirá».Tentado pelo lado errado, escolheria o lado certo. Hoje, apesar do pouco que fez, é um herói. * Só que a ligação de Graham Greene aos serviços secretos não é, nos oitenta e sete anos que viveu, nada de extremamente relevante.Não é determinante, porque se resume a três anos, não é importante, por não ter havido nada de extraordinário que ele haja feito durante esse período.Não há, no que já se escreveu sobre os serviços britânicos de espionagem e de contra-espionagem, referências significativas à sua pessoa. Não há, nas várias biografias que se redigiram sobre si, menções concretas ao que haja feito nessa matéria.Claro que para os biógrafos há sempre um expediente literário de resultado garantido: à falta de factos concretos, que permitam descrever feitos heróicos ou pelo menos dignos de registo, ocupam o seu espaço com a menção ao que se passou nos serviços secretos, quando Greene por ali andava.O leitor, enredado na narrativa, nem se apercebe do que falta e do que engana: a história é real, a personagem é, afinal, um mero figurante.Nesse aspecto, um outro escritor, que ele recruta para o MI6 antes de sair para África, Malcolm Muggeridge, vem a revelar-se bem mais activo do que ele durante o tempo em que permaneceu na estação de Lourenço Marques.Moçambique era, à data, um centro nevrálgico no que respeita às informações militares. Os abastecimentos em produtos petrolíferos aos Exércitos Aliados não podendo fazer, por razões de segurança, a rota do Mediterrâneo, tinham que utilizar a escala do Cabo, com obrigatória passagem pelo Canal de Moçambique.Ora, com o propósito de detectar comboios de navios aliados que utilizassem aquele Canal como ponto obrigatório de passagem, e assim fazer actuar os submarinos para a sua destruição, os Alemães montaram, precisamente a partir de Lourenço Marques, uma rede de agentes dos seus serviços de informações militares, na altura dirigida pelo antigo Cônsul Geral em Pretória, o Dr. Leopold Wertz, um bávaro com refinada cultura musical.Instalado durante quase um ano no Hotel Polana, ali em ostensiva promiscuidade com o agente alemão Wertz e com o representante local dos serviços de informações italianas, um tal Campini, Malcom Muggeridge sentia-se num autêntico albergue espanhol de tudo quanto eram agentes da espionagem a favor de potências estrangeiras.Mal saberia que a promiscuidade ainda viria a ser maior e no género feminino.O Hotel acabaria, aliás, por entrar na História da Literatura precisamente pela mão de Graham Greene, que o refere no seu romance «The Human Factor», como tendo sido o local de predilecto pousio e de mais compensadoras memórias do seu personagem principal, o bisonho agente Castle, cujo casamento com uma mestiça e cujas dúvidas angustiantes de fidelidade aos serviços secretos constituem um dos temas centrais da novela. * Colocado nos serviços secretos, Greene é sujeito a um intenso estágio.O seu estilo fino e irónico retém alguns dos aspectos mais ridículos do que lhe foi dado viver.Uma história fica para a posteridade: ensinado nos métodos de preparação e uso da tinta invisível, o escritor pergunta como agir no caso de ficar, em qualquer situação de emergência, privado de tal instrumento. Os seus expeditos instrutores ensinam-lhe um meio: misturar saliva com caca de pombo. A técnica do «bird shit» entraria com ele nos anais da literatura sobre a espionagem. * Graham Greene chegou a Freetown em Dezembro de 1941, viajando num navio que, com horror ele o descobriria, vinha carregado de TNT.Havia sido recrutado para o MI6 em Julho desse ano. A sua entrada na «firma» foi precedida pela auscultação em festas de fim-de-semana, nas quais, sem que disso se apercebesse, estava a ser observado com discrição.Já tinha então atingido nomeada como escritor, ao ter publicado «The Power and The Glory». Mas o seu estilo perverso já o perseguia.Sujeito ao «positive vetting», Greene teve de enfrentar reticências da parte do MI5. Um dos pontos que pesava contra si era o facto de ter sido condenado a uma pesada indemnização, que levou ao encerramento de uma revista de que era director, ao ter escrito que a figura da menina prodígio do cinema americano da época, Shirley Temple, havia sido delineada pelos seus produtores como um símbolo sexual destinado a acicatar estímulos pedófilos na audiência.Mas o escritor acabaria por ser aceite, no que pesou a influência de sua irmã, Elizabteh Dennys que, desde 1938, se encontrava ligada aos serviços e era casada com Rodney Dennys, ele também um oficial dos serviços de contra-espionagem.O MI6 ainda era, nesses tempos, uma «old boy’s network», em que pesavam mais as relações pessoais do que propriamente razões de segurança.A lógica, na altura, era recrutar os agentes dos serviços secretos entre a elite da «upper class» britânica, com predominância para os melhores de Oxford e Cambridge. Oriundo de Oxford, Greene tinha, por causa desses antecedentes académicos, muitas das portas abertas. Os americanos seguiram o mesmo método quando lançaram o OSS [Office of the Stratetegic Services»] que de tal modo recolhia pessoal com esse perfil que ficou conhecido, pela adulteração das suas iniciais, como o «Oh! So Social!».Na estação de Freetowon pouco se passou durante os catorze meses em que Greene ali permaneceu. Um dos seus biógrafos, Norman Sherry, chamou-lhe, de uma forma sugestiva, «a comedy of errors».Ao escritor que, em matéria de informações, até então se limitara a trabalhar nos serviços de propaganda do Ministério da Informação, mais não cabia do que a rotineira tarefa de um polícia colonial.Naquele sítio remoto e insalubre nada acontecia fora da modorra da rotina. A excitação do local podia comprar-se à de uma corrida de tartarugas.Greene bem podia lembrar-se daquele «motto» do seu camarada das Letras, o escritor Honoré de Balzac, que mais tarde ele citaria no pórtico da antologia «The Spy’s Bedside Book» [organizado a meias com seu irmão Hugh Greene]: «só a vida de um jogador se pode comparar, nas emoções, à vida de um espião». Só que ali as emoções eram poucas.As condições de salubridade e de conforto péssimas. A comodidade de um frigorífico não chegou a atingi-lo, porque um torpedo atingiu o navio que lho transportava, afundando-o.Ele devia reportar sobre os navios que se acolhiam naquele porto e estar especialmente atento a cargas ilícitas ou de contrabando ou a passageiros suspeitos, nomeadamente de serem agentes do Eixo.A natureza da sua missão estava escondida sob a aparência de um cargo oficial de que estaria incumbido: o de inspector do «British Board of Trade».Claro que uma personalidade tão insólita como a de Graham Greene não deixaria de apresentar planos inovadores, à medida do seu irrequietismo, decalcados nos seus fantasmas.A ideia de montar um bordel, cujas prostitutas pudessem funcionar como agentes de espionagem e de intoxicação propagandística dos seus clientes, mormente se clientes importantes, fez assim a sua aparição.Só que Londres objecta a tais ideias, mas não por causa da sua natureza extravagante, antes com fundamento no facto de os franceses já terem um lupanar de sucesso ao serviço do mesmo objectivo.Limitado nos seus movimentos, Greene escreve. «The Ministry of Fear» e «The Heart of the Matter» são redigidos naquele inóspito lugar.No mais, o campo da recolha de informações, o seu progresso é muito diminuto.Uma rede local de informadores, na maioria de origem síria, vem a revelar-se absolutamente ineficaz, pela falta de credibilidade das fontes em que se baseavam.Ademais, em Julho de 1942 Greene entra em conflito com a chefia de Lagos, da qual inicialmente dependia, problema que acabou resolvido a seu favor, sendo autorizado a entrar em ligação directa com a sede dos serviços, em Londres.Lentamente a sua missão está terminada. * Graham Greene regressa a Inglaterra em Fevereiro de 1943.O MI6 coloca-o na Secção V, o serviço incumbido da contra-espionagem no exterior. O serviço estava organizado de acordo com critérios geográficos.Um dos «desks» do «sector ibérico» era o português, onde ele foi integrado, sob a direcção de Charles de Salis.Mais tarde, quando em Agosto de 1943 Salis foi transferido para Lisboa, para ocupar a estação local do MI6, Greene ficou responsável pelo serviço português.Salis, com quem ainda falei na sua residência no Sul de Inglaterra, onde vivia com sua mulher, depois de haver terminado as suas funções no Foreign Office no Rio de Janeiro, referiu-se a Greene nos termos mais afectuosos.Quando viu que, num manuscrito meu, a propósito, se referia que Greene, apesar de estar no «portuguese desk» da Secção V, não dominava a língua portuguesa, pediu-me, amigavelmente, que omitisse essa referência, pois poderia dar a ideia de que ele tinha sido, afinal, um mau elemento, quando tinha sido, pelo contrário, uma excelente contribuição.Lembrei-me então de uma graça que Graham deixou no seu livro «A World Of My Own», no qual compilou umas quantas folhas das oitocentas páginas do diário se sonhos, que redigiu entre 1965 e 1989: o autor de «The Fallen Idol» sonhou que falava com Sartre e que lhe pedia desculpa pelo seu mau francês. Mas Sartre, polido, sossegava-o: «você fala muito bem francês, eu é que não percebo uma palavra do que você diz». * Mas por falar no MI6 e no MI5 entendo que um leitor leigo exige que se lhe explique do que se trata.Na comunidade britânica dos serviços de «intelligence» existiam então, tal como existem hoje, dois serviços essenciais: o MI6 [também conhecido como SIS] e o MI5.O MI5 é o serviço de segurança, cujo mandato implicava a defesa da segurança interna, nomeadamente contra a actividade sediciosa dos espiões estrangeiros.O MI6 é o serviço de espionagem no exterior.Da diferença decorre um efeito: o MI5 pode efectuar espionagem dos cidadãos britânicos. Daí que Graham Grene se considerasse insultado quando alguém confundia a sua missão com a de um agente desse serviço. «Eu nunca espiei os meus concidadãos», dizia, justificando-se.Numa área surgia uma lacuna: o saber qual o serviço que trataria de actuar contra os espiões estrangeiros que agissem no estrangeiro contra os interesses britânicos. Dado que o MI5 estava proibido de agir no exterior, restava criar-se no MI6 uma secção incumbida das acções de contra-espionagem: eis o objectivo da Secção V.Ao regressar a Inglaterra Greene vem a encontrar a secção V ainda instalada em King Harry Lane, St. Albans.O local, situado na propriedade de Lord Verulam, integrava três moradias: «Prae Wood», a residência e escritório do chefe do serviço, «Glenalmond», onde se albergavam os restantes oficiais da secção e um terceiro edifício destinado ao depósito do «General Registry», no qual se encontravam os «source books», livros «most secret» nos quais se continha uma descrição nominal dos agentes colocados no estrangeiro. O desk português estava no piso inferior, os sectores alemão, francês e holandês nos andares de cima do edifício Glenalmond.Quando visitei o local tive a grata surpresa de verificar que ali se albergava hoje uma creche infantil. O arrulhar de crianças substituíra, com a sua esperança num futuro mais feliz, esse denso ambiente que se vivera no tempo da guerra.O ambiente de trabalho tinha o seu quê de familiar, dada a proximidade das pessoas e o seu diminuto número, cerca de seis oficiais.A Secção V era dirigida pelo major Félix Cowgill, que sucedeu no cargo a Valentine Vivian, vulgo «Vivi». O seu ajudante era Tim Milne, o qual estava ocupado com a coordenação do material oriundo de Bletchley Park, onde se levava a cabo a descodificação das comunicações alemães decorrentes das máquinas «Enigma», o material «Ultra».O «desk» ibérico era dirigido então por Harold Russel [«Kim»] Philby, uma profunda infiltração soviética na comunidade britânica de informações, um homem que na data conspirava já para alcançar a liderança do serviço.O pessoal ao serviço no sector consistia em Charles de Salis, ocupado com Portugal e suas possessões, Trevor Wilson, especialista no Norte de África, incluindo assim Gibraltar, Tanger e Marrocos, Frank Hyde, Jack Ivens e Desmond Bristow. Mais tarde chegaria Francis Watts.A chegada, ao sector, de Trevor Wilson, então com cerca de trinta anos, ficou a dever-se, segundo Bristow confidenciou nas suas memórias, ao seu conhecimento da língua marroquina e «talvez às suas habilidades de comediante». Antes de chegar os serviços secretos, Trevor havia sido comprador, na Abissínia, de excremento de doninha fedorenta para a companhia de perfumes Molyneux. Tinha, por isso, um razoável conhecimento da situação no norte de África. Católico, tal como Greene, tornou-se, por isso seu amigo. Encontrar-se-iam mais tarde no Vietname. Tal como quanto a Greene, o género feminino não o deixava indiferente.Frank Hyde era um antigo oficial de ligação da Marinha Britânica em Barcelona durante a Guerra Civil espanhola.Quanto a Jack Ivens, havia trabalhado como importador de fruta de Portugal e de Espanha, antes do início da Guerra. Era casado com uma grega.Só que a quantidade de trabalho ia para além das expectativas e Greene acumulava um sentimento de claustrofobia. Praticamente só depois das oito da noite conseguia sair para respirar algum ar fresco. Por isso os momentos de descontracção sabiam a pouco. Um deles era vivido em torno de um «pub» que se tornaria lendário, o Peahen Inn.Depois de ter visto num livro de memórias do agente Desmond Bristow, ele também elemento da Secção V, com quem conversei há uns anos em Málaga, onde se encontrava reformado, fiz questão de visitar o local e tomar uma cerveja numa das mesas por onde se deve ter sentado Graham Greene, «Kim» Philby e o resto do grupo.Mas os almoços ocorriam também no «King Harrys», sobretudo os de domingo, onde este grupo de amadores cimentava as suas relações em torno de verdadeiros festins de cerveja e sanduíches.Só que a Secção V não estaria ali por muito tempo pois, em Julho de 1943, mudar-se-ia para Londres onde, no número 7 em Ryder Street, St. James, ocuparia as instalações que acabariam por ser, mais tarde, as da prestigiada revista «The Economist». A entrada do edifício tinha uma placa onde se mencionava discretamente «Charity House».Para se entrar cada um dos membros não exibia um cartão que o identificasse como um agente dos serviços secretos, mas sim um cartão de membro do «Greenwood Country Club».Junto ficava a residência do chefe máximo do MI6, Sir Stwart Menzies, o célebre «C» [alias «CCS», que Ian Fleming, outro membro dos serviços secretos que deu em escritor, chamaria nos seus livros sobre James Bond, «M»]. O escritório de Menzies era no quarto andar do n.º 54 de Broadway. A entrada do imóvel ostentava, para melhor disfarce, uma placa que o identificava como a sede da firma «Minimax Fire Extinguisher Company».Já em Londres, Greene teria a oportunidade de encontrar Norman Holmes Pearson, professor de literatura da Universidade de Yale e James Jesus Angleton, que viria a ser director da CIA, ambos integrados nos serviços americanos de espionagem, o OSS.Não há muito que se diga do que fez Graham Greene durante a sua permanência na Secção V do MI6.Seguramente que lhe competia trabalhar no extenso ficheiro de espiões nazi fascistas que operavam a partir da Península Ibérica, nomeadamente desde Lisboa, o «Purple Primer».Para isso ele era alimentado por informação que lhe chegava de várias fontes, nisso incluindo o produto das escutas das comunicações radiofónicas alemãs, de cuja descodificação se encarregava um dos mais secretos serviços de cripto análise, situados em Bletchley Park, o GCHQ.O material chegava todos os dias numa carrinha de padeiro, conduzia pela mulher de um dos cripto analistas.Só que, para além desta tarefa de compilação de dados e de elaboração de relatórios, pouco mais se conhece a Graham Greene durante este seu período de permanência pela Secção V do SIS.Por isso, muito do que é referido a tal propósito tem mais a ver com acontecimentos que ele viu do que com factos que ele praticou.A descrição de «Kim» Philby é, nesse aspecto, eloquente: Greene contribuíra para a alegria e boa disposição do serviço mas, de facto, não se recorda um feito relevante a que ele pudesse ter estado então associado.Talvez a arte de viver o servisse então da maneira mais cómoda, ele que deixaria num seu livro a ideia de que, nos serviços secretos, uma parte do trabalho consistia em dar a impressão de que se trabalhava. * Vivendo uma vida secreta, tendo experimentado a vida dos serviços secretos, Graham Greene haveria de exprimir, na sua obra literária, muito desse envolvimento com a duplicidade, com as sombras e com a clandestinidade.Nesse aspecto não esteve só e entroncou uma extensa galeria de escritores espiões e de espiões escritores: John Buchan, Ian Fleming, Somerseth Maugham, Malcolm Muggeridge, Rudyard Kipling, T. E. Lawrence, Compton Mackenzie, John Le Carré, acompanham-no nesse particular.É claro que, como escreveu num dos seus livros, as suas experiências no MI6 no campo dos sonhos foram bem mais interessantes do que o trabalho de secretária que levou a cabo, durante três anos, no mundo real.Vistos do ângulo de Greene, os serviços secretos são uma entidade fria e indiferente aos dramas humanos que se vivem no seu interior.A propósito da sua escrita, David Cornwell, que passou para a literatura com o nome de John Le Carré, disse que Graham Greene tinha «uma compaixão universal transcendente».Ora, nesta perspectiva, um tal homem só podia diabolizar o mundo restrito em que se movia.Aí está essencialmente em causa o factor humano e «The Human Factor» é precisamente o título de uma das suas obras mais conseguidas a este respeito. Greene sabe que o homem é sempre mais complexo e mais universal do que aquilo que dele se desdobra no emprego, na família, num partido.Ao escrever uma introdução ao seu livro «The Confidential Agent» que, em Portugal, circula como «O Agente Secreto», Greene deixou este momento sobre uma das personagens: «Há certas coisas que me agradam neste livro: por exemplo, a situação do agente com escrúpulos, que não tem confiança no seu partido e que chega à conclusão que o seu partido tem razão em não confiar nele».E com este o binómio, o da fé, da crença e da confiança e dos seus reversos, o desespero, a dúvida, a suspeita Greene passa da álgebra do real para a geometria da ficção. * Mas, por ventura, é na sua visão do que se possa entender como o paroxismo da lealdade que Graham Greene se notabilizou.Ao escrever o prefácio para o livro de memórias que «Kim» Philby editou já a partir da URSS [«My Silent War»], Greene teve a ocasião de exprimir a verdadeira natureza do seu pensamento a este respeito.Ligava-o a Philby uma profunda amizade. Entre ambos manteve-se uma regular correspondência, contra o que seria conveniente.Ao desaparecer em 23 de Janeiro de 1963 com destino a Moscovo, a partir de Beirute, onde se encontrava colocado, aparentemente como jornalista correspondente do «Observer» e da revista «Economist», Philby tornar-se-ia uma das pessoas mais odiadas pelo «establishement» das informações.Greene compreendeu Philby, como poucos o fizeram.Compreendeu-o porque, no plano humano, relativizou a sua atitude, situando na sua verdadeira dimensão a questão da lealdade, comparando a que é devida a um país com a que é devida a uma pessoa ou a uma ideia. A frase «quem, entre nós, não traiu algo ou alguém mais importante do que um país?» liquida, de modo definitivo, a majestade da dedicação fiel a uma Nação ou a um Estado.Compreendeu-o porque lhe deu o direito ao esquecimento e à amnistia moral. A última frase desse polémico prefácio «depois de trinta anos no subterrâneo ele seguramente ganhou o direito à paz» encerra em si mais compaixão humana do que aqueles que, ao escreverem na imprensa britânica, em Maio de 1988, o obituário de Philby, não hesitaram na selvajaria de desejarem que a sua agonia tivesse sido longa e dolorosa.Compreendeu-o, enfim, porque soube ler uma das frases dessas memórias em que Philby, lembrando que, durante a Segunda Guerra, a Grã-Bretanha tivera na Rússia soviética uma aliada contra a Alemanha nazi clamava, ante o antagonismo que nascera entre ambas as potências com a guerra-fria que, afinal, a Inglaterra, que o acusava de traição, é que mudara e traíra, pois ele, mantivera-se fiel.Greene, ao visitar a URSS, a convite de Mikhail Gorbatchov, em Setembro de 1986, teria a oportunidade de visitar Philby no seu apartamento em Patriarch’s Pond. Novos encontros teriam lugar em Setembro do ano seguinte e em Fevereiro de 1988, pela última vez.Rufina, a última mulher das muitas mulheres de «Kim» Philby, recorda com emoção esse derradeiro momento.Claro que tanto Greene como Philby ignoravam que esse seu encontro vinha orquestrado pelos serviços do KGB.Genrikh Borovikh, jornalista da agência soviética Tass e da televisão de Moscovo, actuando a mando do «Centro» organizara as coisas.Philby vivia então numa miserável e anónima situação de ostracismo, ignorado quanto a tudo o que fizera em prol da URSS.A nova gente do KGB entendeu o absurdo da situação. Entendeu, sobretudo, em que medida uma tal ingratidão poderia revelar-se desconcertante para futuros recrutamentos, revelando que não valia a pena, afinal, o heroísmo em prol dos «amanhãs que cantam». Por isso tentaram reabilitar Philby, trazendo-o à ribalta.Neste particular, sem que disso se desse conta, Greene foi instrumental.Aquele vício que ele, certeiramente, diagnosticara nos serviços secretos ingleses contagiava, também, os da pátria do socialismo. O factor humano contava pouco, contava zero. * É essa ideia que subjaz também à sua obra «Our Man in Havana».A história é conhecida: Wormold, um vendedor de aspiradores residente em Havana, falho de dinheiro, acaba por se embrulhar com os serviços secretos. A oportunidade de convencer o MI6 de que o diagrama de ligações de um desses electrodomésticos era, afinal, o plano de um míssil, abre-lhe as portas como espião. Torna-se o agente 59200/5, «o nosso homem em Havana». Daí em diante basta ir alimentando a sede insaciável dos seus superiores com informações falsas, muitas das quais baseia nas «Tales from Shakespeare» e na sua prodigiosa imaginação. A partir dele toda uma rede de agentes surge, tudo pago principescamente por quem estava desejoso de se deixar enganar.Assim contada, a narrativa parece impossível. E, no entanto, por detrás dela estão dois acontecimentos ocorridos em Lisboa e que se reclamam como fontes inspiradoras da história.Em primeiro lugar, o caso de Juan Pujol Garcia, o agente «Garbo»; em concorrência com ele, a história incrível de Paul Fidrmuc, o agente checo «Ostro».Quer um quer outro são casos de personagens que, deliberadamente, enganaram os serviços secretos, vendendo-lhes falsa informação.«Garbo», porém, conseguiu levar mais longe a sua façanha: durante a Guerra e por incrível que isso pareça, ele recebeu, pois era agente duplo, as mais altas condecorações dos governos britânicos e alemão.A propósito de ambos tive duas experiências pessoais indeléveis.Juan Pujol Garcia era um catalão que se escapuliu para Portugal. A partir da sua residência, no Estoril, montou todo um esquema astucioso pelo qual enganava os alemães, fornecendo-lhes falsas informações sobre uma realidade que não conhecia: a vida em Londres.Garcia nunca tinha estado em Inglaterra e os elementos de que dispunha sobre a cidade eram um mapa de horários de comboios, um folheto turístico e um dicionário. A sua ignorância era tal que não sabia fazer a conversão do dinheiro inglês no complicado sistema antigo dos «shillings» e dos «pennies». Mas como o atrevimento era grande, não se coibiu de avançar.Por isso, em troca de avultadas quantias que ia recebendo no Banco Espírito Santo em Lisboa, Garcia não só fornecia pormenores absolutamente fantásticos sobre dados concretos do que supostamente se estaria a passar em Londres, por causa dos bombardeamentos alemães como, além disso, foi paulatinamente gerando toda uma rede de agentes fictícios, pagos pelos serviços secretos militares alemães, a Abwehr.Uma das experiências mais fantásticas que me foi dado observar foi encontrar em Inglaterra, no Public Record Office, todos os dossiers que os serviços britânicos haviam compilado, um por cada um dos agentes.Um espectador que os visse desprevenido imaginaria que se tratava de dossiers atinentes a agentes reais. Só que isso não era assim. Cada um compilava as informações que, em nome desse falso agente, haviam sido passadas aos alemães.Graças a Garcia e, sobretudo, ao seu controlador, o negociante de arte Thomas Harris, nasceu um agente duplo, com o nome de código «Garbo», em homenagem aos seus dotes de actor e como uma lembrança à actriz Greta Garbo.«Garbo» contribuiu de modo decisivo para a sorte do desembarque aliado na Normandia.Integrado no XX Committee, ele conseguiu enganar os alemães quanto ao local exacto desse desembarque. Milhares de vidas foram poupadas por causa desse feito.Mais tarde ele seria encontrado na Venezuela pelo historiador «Nigel West», nome literário do deputado Ruppert Alason. Quanto a «Ostro», a sua história é semelhante.Também a partir de Lisboa alimentava os alemães com informações falsas.Nele, a realidade e a ficção também se misturavam.Nascido em 28 de Junho de 1898, Fidrmuc dedicar-se-ia à vida comercial, o que lhe daria a cobertura suficiente para os seus vários postos no estrangeiro ao serviço da Abwehr nazi, primeiro na Dinamarca, depois em Roma e finalmente em Portugal.Um hedonista perfeito, grande parte do seu tempo era consumido em actividades náuticas.Os que com ele privaram então recordam ainda a canoa com que se deleitava em excursões ribeirinhas, adensando em torno dessa inocente actividade parte do mistério sobre a sua pessoa e as reais finalidades desse lazer. No «milieu» ele era «o homem da canoa».Um dia, em 24 de Agosto de 1943, na praia dos Coelhos, na Arrábida, conseguiu deitar a mão a uma agenda do Embaixador Ronald Campbell, na qual estavam anotados códigos secretos que podiam comprometer a segurança das comunicações diplomáticas.Por causa dele procurei, no Estoril, a Vivenda Igloo, a sua residência de então.Não a encontrei. Mas, um dia, num intervalo de um julgamento no Tribunal da Boa-Hora, daqueles que são sucessivamente adiados, tive um estranho pressentimento.Sabia que «Ostro» tinha estado em Lisboa. Sabia que a sua actividade se ocultara por detrás de uma firma comercial. Ora a Conservatória do Registo Comercial era ali ao lado.Num ápice ali estava eu. Por sorte e amabilidade do funcionário, minutos depois ei-la, a certidão do registo, nas minhas mãos: era a firma «Brucker-Trans, Limitada».A Brucker -Trans, Ldª havia sido constituída em 7 de Maio de 1941, no cartório do notário Tavares de Carvalho, em Lisboa. Foram seus sócios fundadores Germain Brucker - Trans, casado, morador no Estoril, no Hotel do Parque e Paul Fidrmuc, casado, morador no Estoril no Hotel Igloo, na Rua D. Afonso Henriques e Camillo Franck, casado, morador em Algés, na Rua da Boa Vista. Todos os sócios declinaram terem como profissão a de «comerciante».A firma tinha a sua sede em Lisboa, na Praça do Comércio, nº 7, tendo como vago objecto «o exercício do comércio, sem espécie alguma determinada».Negociara em cortiça, alimentos enlatados, produtos resinosos e import/export da Bélgica e da Alemanha.Mais tarde mudaria a sede social para a Rua da Prata, nº 80, 3º andar. Saído do tribunal, subi a escada pombalina, a cheirar a xixi de gato. Em frente a mim estava uma porta de madeira meia apodrecida. A poeira da História empestava o lugar. Por um momento, sessenta anos no tempo equivaleram a um segundo de intensa emoção. * Greene demite-se do SIS no dia 2 de Junho de 1944, quatro dias antes do dia D, o dia do desembarque das forças aliadas nas praias da Normandia. Fê-lo com todo o cavalheirismo. Convidou «Kim» Philby e Tom Milne para almoçarem no Café Royal e apresentou as suas razões.Mais tarde justificar-se-ia dizendo que o fizera porque se apercebera das movimentações de Philby para alcançar o lugar de Cowgill e não quisera alinhar em tais manobras.Quando Norman Sherry escreveu a monumental biografia de Graham Greene, que planeou em três volumes de que apenas saíram dois, após doze anos de trabalho insano, ainda as verdadeiras razões da resignação do escritor permaneciam envoltas em mistério.Certo que uma personalidade intranquila como a de Greene seria pouco compatível com a permanência naquela rotina burocrática por muito tempo. Philby, com quem Sherry teve ainda a oportunidade de falar, confidenciou-lhe que chegou a oferecer a Greene a chefia do lugar que ocupava, admitindo recomendá-lo para aí, mas ele recusou-se. * 2004 - perfazem-se cem anos que nasceu Graham Greene. Graham Greene esteve ligado a Portugal. Esteve-o durante a sua passagem pelos serviços secretos. Mas esteve-o também durante as suas várias deambulações na fase terminal da sua vida.De todos os locais Sintra é um dos mais determinantes.Já retirado dos serviços secretos, Graham Greene passeia-se, enfim, longamente, pelos lugares da sua memória, com o padre católico Leopold Durán, seu amigo, biógrafo e confidente.No Outono das suas vidas, é tempo de recolhimento e de diversão, de viagens que nada tendo a ver com turismo, antes são deambulações erráticas a que ele chama então de «picnics».Entre os seus passos, estão Lisboa e os arredores, com predilecção para Sintra.Mas é em Sintra que sente agora os seus melhores momentos.Ali Greene encontra uma referência dos tempos aventurosos da sua passagem pelo Quénia: Maria Newall.Restam-lhe ainda muitos anos de vida, pois viria a falecer em 1991. Mas para trás ficara já um vasto mundo de viagens e de sonhos.Foi assim no Verão de 1977. A 19 de Julho, Graham Greene e o Padre Durán chegam à «Quinta da Piedade» em Sintra e hospedam-se no pequeno anexo que ali se encontra, envolto num jardim e dedicado às visitas.A anfitriã, Maria Newall, limitada a uma cadeira de rodas, recebe-os efusivamente, no anexo que a generosidade da marquesa do Cadaval lhe proporcionava. Então com oitenta e cinco anos de idade, esta simpática anciã, que viria a falecer em Julho de 1984, é um marco miliário no seu itinerário.Ao receber o amigo, Maria conservava a força de alma dos tempos em que defendera os seus domínios territoriais contra a insurgência dos «Mau-Mau» e em que, de revólver à cintura, recebera o então jornalista Graham Greene.Católica, a vida espiritual é agora parte determinante da sua vivência quotidiana. Os livros continuam a envolvê-la.A cidade do Tejo não lhe era estranha. Já aí estivera com Carol Reed, o director cinematográfico, então em masculina diversão.Entre os planos do escritor, pulula agora a ideia de entrevistar o então major Otelo Saraiva de Carvalho, o romântico estratega do 25 de Abril.Mas nada disso vem a suceder, e a passagem por Lisboa desfruta-a, entretanto, como qualquer anónimo viandante.Paciente e devotado, o cura espanhol faz-lhe companhia.Uma noite, ignorados, jantam no «Michel», ao Castelo de São Jorge, restaurante que para Greene se chama o «Restaurante da Inspiração». Eterno conversador, o escritor desmultiplica-se aí em anedotas pouco canónicas, que a memória do eclesiástico regista com pormenor.No ano seguinte estão de novo em Sintra. Desta feita, para uma visita ao palácio de Queluz, residência real. Almoçam na Cozinha Velha e tentam ver os quadros de Don Quixote. Só que a presença do presidente alemão no local barra-lhes o caminho quanto a tal propósito.Desolados, retornam a casa de Maria Newall.De 1977 em diante, praticamente em todos os anos, Graham Greene passaria uma semana na Quinta da Piedade.Tudo aqui tão perto. * Nas primeiras linhas do seu livro «The End of the Affair», Graham Greene escreveu: «uma história não tem começo nem fim: alguém escolhe arbitrariamente o momento da experiência a partir do qual se olha para trás ou para a frente».Quisemos olhar para a vida de um homem a partir da irracionalidade dos seus sonhos.No momento em que nasce, um homem pode vir a ser tudo, quando morre já o todo se atingiu.Comemorar o nascimento de quem está morto é, por isso, um acto simbólico de ressurreição espiritual, como se, querendo enaltecer-lhe a vida, quiséssemos devolver-lhe a oportunidade de a viver outra vez.Perguntado como se sentia por não ter recebido nunca o prémio Nobel da Literatura Graham Greene ironizou, dizendo que teria seguramente um prémio bem melhor do que esse, o da morte.E é um facto que para os escritores a morte é a garantia da consagração.Aqui celebrámos a vida.Viva Graham Greene, que com ele vive, errática, complexa e tumultuosa, a própria vida!

3 Comments:

Blogger benprice60415059 said...

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6.5.06  
Blogger filomeno2006 said...

Se convirtió al cristianismo católico en el Monasterio orensano de Osera

22.12.09  
Blogger filomeno2006 said...

En 1981, renunció a ser Caballero de la Legión de Honor Francesa, por el "Affaire Niza", como relató en mayo de 1982, en el diario ABC auténtico, el sacerdote orensano Don Leopoldo Duran Justos.

22.12.09  

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